Por que doamos?

Por Fernando Nogueira

Por que pessoas doam e, de forma mais geral, desenvolvem comportamentos altruístas?

Essas foram algumas das principais questões debatidas em uma conferência na New School, em Nova York. Com o nome de “Giving: Caring for the Need of Strangers” (Doar: Importar-se com as Necessidades de Desconhecidos, em tradução livre), o encontro reuniu pesquisadores e especialistas dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa para discutir resultados de pesquisas recentes em doações, captação de recursos e filantropia, em dezembro do ano passado.

Em termos científicos, altruísmo pode ser definido como o cuidado que damos a outros a um custo para nós mesmos. Biologicamente, esse comportamento é ilustrado pelo esforço que o corpo da mãe tem que fazer para gerar alimentação a seus filhos, tanto no útero quanto em seguida na produção do leite. As duas principais explicações aceitas por psicólogos e biólogos sobre a origem do comportamento altruísta são por proximidade de parentesco (“kinship”, em inglês) e reciprocidade.

O primeiro caso ocorre quando ajudamos filhos, irmãos, primos ou parentes em geral, seja por laços biológicos (para preservar genes semelhantes aos nossos) ou sociais (pela força da família enquanto unidade cultural e social). A reciprocidade se refere à expectativa de contatos constantes entre pessoas de diferentes famílias, e neste caso doações ou comportamento tidos como altruístas ajudam a criar laços de confiança que favorecem novas trocas e relações entre os grupos. É interessante notar que o comportamento altruísta também aparece em várias espécies, mas o grau de generosidade humano é significativamente maior e representa uma das marcas que nos diferencia de outros animais.

Mas essas duas abordagens (“kinship” e reciprocidade) ainda não explicam por que pessoas doam para desconhecidos. Nesse sentido, outra forma de pensar sobre nossos comportamentos altruístas se dá no dualismo “nature vs nurture” (natureza versus cultura). Doamos por que somos geneticamente programados para termos esse comportamento, por alguma razão evolutiva ou por que socialmente nossa cultura valoriza e incentiva esse tipo de atitude?

Pesquisas relacionadas ao primeiro caminho, o evolutivo, apresentam evidências de que nos sentimos bem ao sermos generosos. A doação ativaria centros de recompensa ou mesmo prazer em nossos cérebros, o que nos motiva a doar novamente. Além disso, aparentemente nascemos com a capacidade de sentir compaixão e empatia -nos importarmos com o sofrimento alheio. Doar a estranhos pode ser uma das manifestações dessa capacidade.

Já a linha com ênfase na cultura humana apresenta explicações como tradição (doamos porque nossos pais já doavam), pressão social ou do grupo (se várias pessoas de nosso círculo social ou comunidade doam, também nos sentimos pressionados ou motivados a doar), por questões de status (valorizamos os que doam e se preocupam com desconhecidos), de identidade (demonstramos nossos valores e ideais por meio de nossas ações) ou mesmo uma extensão dos argumentos de reciprocidade e criação de laços sociais, como mencionado acima.

O professor Felix Warneken, um dos debatedores do evento, desenvolveu uma hipótese que combina os dois caminhos. Estudando a capacidade de bebês e crianças de ajudar estranhos sem serem solicitados, ele conclui que a socialização humana -a forma como somos criados, como educamos nossos filhos- se dá em cima de uma predisposição biológica. Ou seja: nascemos com o potencial da generosidade, mas nossas práticas altruístas se desenvolvem em maior ou menor grau com base em nossa cultura.

O recado que vem dos debates é claro: o papel de empreendedores sociais, ativistas, líderes e profissionais de ONGs é ajudar a exercitar esse potencial e desenvolver uma cultura mais forte de doação e voluntariado para todos.

Festival Latino-Americano de Captação de Recursos está com inscrições abertas )

FERNANDO NOGUEIRA, professor da FGV-EAESP e da ESPM, doutorando em Administração Pública e Governo na FGV-EAESP, é pesquisador visitante na New School e colaborador-voluntário da ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos)

Grupo elabora princípios para voluntariado corporativo

Por Rodrigo Zavala

Quais são os princípios norteadores para a criação de programas consistentes de voluntariado corporativo? E quando uma empresa está pronta para dar início a políticas na área?
Essas questões foram abordadas no segundo “Painel Temático sobre Voluntariado”, realizado pelo GIFE, no último dia 29, com o apoio do Carrefour. No encontro, estavam presentes 31 dos principais gestores de programas de voluntariado corporativo no Brasil.

Depois de um breve panegírico sobre o tema, realizado por Fernando Rossetti, secretário-geral do GIFE, e Heloísa Coelho, diretora executiva da organização Rio Voluntário (veja apresentação), os participantes formaram grupos de trabalho para sistematizar o que consideram como linhas fundantes de uma boa ação de voluntariado.

O resultado final foram os seguintes princípios:

– Engajar a alta administração;

– Envolver os públicos de interesse do projeto;

– Diagnosticar oportunidades, potencialidades, riscos e desafios;

– Alinhar os programas aos valores e negócios da empresa;

– Garantir uma gestão profissional nos programas que inclua: planejamento, avaliação, monitoramento, sistematização;

– Reconhecer e valorizar o voluntário;

– Manter a comunicação interna e externa do voluntariado empresarial.

O gerente de Conhecimento do GIFE, Andre Degenszajn, explica que o contexto do trabalho com voluntariado é marcado pela diversidade dos programas. Estes são frequentemente estruturados de maneira não sistemática e sem planejamento, atendendo a demandas diversas que emergem muitas vezes dos próprios funcionários da instituição.

“A construção de princípios é importante justamente para garantir um entendimento comum sobre as características necessárias a um programa de voluntariado efetivo”, acredita.

Por que fazer?

Segundo a publicação “Como as Empresas Podem Implementar Programas de Voluntariado” (de 2001), do ponto de vista filosófico, ser voluntário pode significar muito mais do que dar comida a quem tem fome, tratar uma pessoa doente ou sanar suas necessidades imediatas, ainda que estas sejam iniciativas indiscutivelmente necessárias.

“O voluntariado é um caminho de busca de conscientização das pessoas, de mobilização de grupos sociais marginalizados na defesa dos seus direitos, de influência nas políticas públicas e outras ações no campo da cidadania”, analisa o livro.

Mas como isso ocorre dentro das empresas? De acordo com as conclusões levantadas na primeira edição do painel temático, realizada no final de 2008, há uma serie de razões para a criação do programas. Entre elas, estreitar relacionamento com grupos de interesse, reforçar a imagem socialmente responsável, compartilhamento de competências técnicas com a comunidade, ou mesmo por demanda dos próprios funcionários.

Para a consultora Flávia Moraes, da FMC Consultoria, no entanto, a questão deve ser encarada com mais profundidade. Em primeiro lugar, os profissionais de uma empresa devem entender a razão de iniciar um processo desses.

Em seguida, defendendo uma espécie de “teoria dos 7 por quês”, Flávia afirma que a pessoas devem se questionar de forma consecutiva sobre as motivações de se realizar um programa nesses moldes. O exercício lembra a fase do “por quê?”, comum em crianças de determinada idade, e reflete a maturidade do debate dentro da corporação, desde que “o discurso sobreviva à sabatina”.

Seja como for, a resposta final para esse questionamento deve estar pautada em valores éticos, de transformação social. ”Se o empresário acredita que o seu papel é gerar lucro, mover a economia, pagar impostos e dar empregos, ele não deve estimular voluntariado corporativo”, argumenta.

Segundo a consultora, uma insistência nesses casos é catastrófica, pois a direção da empresa – que é essencial para o andamento do processo – não dará a devida importância para o programa (reduzindo recursos financeiros e humanos para sua implantação). Invariavelmente, esse distanciamento também leva a uma falta de identificação do colaborador com a ação.

“O envolvimento da liderança, para ser efetivo e estimular a dedicação do colaborador, só funciona se o presidente for voluntário também. Não adianta recomendar, dizer que é bom, pedir, e não participar”, afirma Flávia. Tal como a criação de um filho, os discursos devem estar colados às práticas para serem levados como exemplos.

Contexto

Pela lógica da ética empresarial e envolvimento efetivo da diretoria, a organização assumiria que o voluntariado é imprescindível para uma mudança real na comunidade da qual participa ou para a defesa de uma causa. Some a isso uma gestão participativa, que escute o voluntário, e o processo passa a funcionar.

“Por que o funcionário não vai ser voluntário em uma associação do bairro ou na escola de seus filhos, com as quais ele se identificaria mais? Ele deve ter a certeza de que não está sendo usado pela empresa”, comenta Flávia.

Segundo o Perfil do Voluntariado Empresarial no Brasil, elaborado pelo Rio Voluntário, que faz uma radiografia das iniciativas de voluntariado corporativo no Brasil, os colaboradores das empresas são mais facilmente engajados nos programas quando: a) um profissional de comunicação interna está comprometido com o programa (79%) e; b) a diretoria está presente nos programas.

Para 84% deles, a existência de uma diretoria participativa está fortemente vinculada ao sucesso de um programa de voluntariado empresarial. O curioso é que apenas um quarto das empresas que apresentam esse tipo de programa declararam que seus diretores participavam maciçamente das ações.

Embora seja muito importante, apenas o envolvimento das lideranças não bastam para tornar um programa consistente. Segundo o próprio grupo, uma gestão profissional, que garanta planejamento, avaliação, monitoramento e sistematização das ações é um passo fundamental.

“Ser voluntário é, antes de tudo, acreditar que se pode vencer, não temer os desafios, suar a camisa em prol de uma causa. Um colaborador motivado, comprometido com a cultura da empresa, é condição fundamental para o sucesso das equipes, dos projetos, da empresa. Um cidadão motivado, comprometido com a sustentabilidade do planeta, é condição fundamental para o sucesso das comunidades, dos ecossistemas, do planeta”, afirma Heloisa Coelho.
 

Fonte: Gife

Estamos prontos para aproveitar o poder das pessoas?

Bruno Ayres*

Embora a força da sociedade civil esteja no engajamento pessoal dos cidadãos, a sua porção mais visível é organizada e institucional. O mesmo ocorre com o voluntariado: a maioria dos especialistas, mídia e governos referem-se sempre a sua dimensão institucional, subestimando o poder de milhões de cidadãos que estão utilizando colaboração, criatividade e talentos pessoais para trazerem soluções para suas comunidades, independente de apoio formal ou organizado.

Esta dimensão institucional refere-se a organizações da sociedade civil que geralmente oferecem modelos burocráticos de participação voluntária aos cidadãos: seguindo os mesmos moldes do emprego formal, como processos de recrutamento e seleção, atividades prontas, gestão verticalizada etc. Estas são formas legítimas para organizar o trabalho das pessoas, mas não são as únicas e, certamente, não representam o modelo de engajamento que alavancará o poder de colaboração latente na humanidade.

Um dos impedimentos para a participação voluntária do cidadão comum é a noção de que o voluntariado é algo especial, feito por pessoas extraordinárias, longe de sua realidade. Esta barreira tem que ser quebrada.

O voluntariado é um ato humano, essencial para a vida quotidiana, desenvolvido por todos, em vários níveis. Na verdade, em comunidades de baixa renda no Brasil, o voluntariado e a generosidade de cada um é o que dá sustentabilidade para a vida em comunidade. O voluntariado é muito mais diversificado do que as imagens imediatamente associadas a ele.

Essa diversidade deve ser valorizada e reconhecida. As pessoas podem se sentir incluídas no movimento voluntário – desde pequenos atos diários (como reciclagem, consumo consciente, ajuda mútua), até atividades formais e estruturadas. São as interações complexas entre esses atos que compõem um tecido social saudável.

Dar visibilidade pública a esta diversidade pode inspirar e estimular a centenas de milhões de pessoas pelo mundo que gostariam de se voluntariar, mas não sabem como começar. Existe uma enorme oportunidade para criar modelos simples e descentralizados de participação e estimular que, durante o processo de colaboração, os voluntários se tornem, gradualmente, mais ativos.

Em nossa experiência na Rede V2V, ao desenvolver tecnologias de Internet para promover a atividade voluntária, foi muito importante considerar o “ciclo de vida” do voluntário. Há muitas maneiras diferentes de contribuir para uma causa e o envolvimento pode ser progressivo, começando com uma pequena contribuição e evoluir para uma participação mais profunda e contínua. Os gestores de programas de voluntariado sempre tendem a preferir este último tipo de participação, onde se pode obter mais retorno aos seus esforços de recrutamento; porém ao fazê-lo, deixam a maior parte das pessoas de fora.

A tecnologia está transformando a forma das pessoas colaborarem. Com a significativa queda no custo das comunicações, os esforços de planejamento e organização do trabalho também diminuíram. Hoje, vemos exemplos de grandes projetos sendo possíveis devido a contribuições voluntárias de enormes quantidades de pessoas, com a maioria dos participantes contribuindo apenas uma vez, como uma pequena peça de um grande quebra-cabeças.

Um exemplo disso é a Wikipedia: de longe a maior enciclopédia já produzida, em número e profundidade de verbetes. Lá, os poucos voluntários administradores e principais contribuidores fazem a maior parte do trabalho: 1,8% dos usuários estão fazendo mais de 70% das edições.

Porém singularidade da Wikipédia nunca poderia ser alcançada pela contribuição de apenas 1,8% dos participantes. O que importa não é assegurar apenas a força de trabalho dos poucos super usuários, mas sim desenvolver um modelo que permite não perder valiosos conhecimentos que estão distribuídos em um grande número de membros de uma comunidade. É a capacidade de lidar com a colaboração em massa que torna este projeto voluntário uma das mais importantes conquistas do conhecimento coletivo.

Quando queremos realizar uma iniciativa, seja ela social ou empresarial, costumamos criar uma organização para que possamos obter 70% do trabalho, empregando os esforços de 1% das pessoas. Essa é a nossa mentalidade, e economicamente isso faz sentido, não?

Mas, fazendo isso, renunciamos a valores significativos: independência, diversidade, inovação e, ainda mais importante quando se fala em voluntariado, perdemos a oportunidade de incluir a maioria dos cidadãos que também poderiam ser parte da solução, em vez de serem apenas parte do problema. Isto é algo para se ter em mente quando repensamos nossos papéis e projetos em um mundo interligado, de cerca de 6,7 bilhões de pessoas.

Mas, como usar estes novos modelos de colaboração em projetos voluntários? Desde 2004, temos utilizado ferramentas de redes sociais para promover voluntariado no Brasil. Esse projeto, V2V (Volunteer-to-Volunteer) foi criado no Rio de Janeiro, em forte colaboração com empresas que queriam dar voz a seus funcionários, familiares e clientes interessados em voluntariado.

Seguindo a mesma inovação que o site de leilões e-bay fez no mercado de varejo, criando um ambiente confiável para que as pessoas pudessem não apenas comprar, mas também vender os seus produtos, o V2V incentiva voluntários a se tornarem produtores, e não somente consumidores de oportunidades de voluntariado – pessoas comuns como agentes de mudança positiva na sociedade.

A essência da V2V é dar o poder de promoção do voluntariado diretamente para o indivíduo em sua comunidade local. O V2V dá visibilidade às pessoas e seus interesses em redes sociais que são alimentadas por elas mesmas. Reduzindo intermediação e formalidade nas interações entre voluntários é possível ampliar significativamente os canais de participação social.

Em uma parceria internacional com a Starbucks Coffee, o V2V tornou-se um projeto global. É uma rede social em expansão, sendo usada em empresas, universidades e cidades por mais de 85 mil voluntários que desenvolvem mais de 12 mil ações sociais em 64 países.

Como promotores do voluntariado, o grande desafio do nosso trabalho é criar condições para incluir as pessoas que têm desejo de participar. A única maneira de se livrar dos modelos centralizadores de poder, do assistencialismo, da dependência e de outros riscos que afetam projetos de voluntariado é envolver todos os interessados nas iniciativas que promovemos.

O trabalho realizado por amadores é uma importante manifestação de colaboração voluntária. Eles têm tempo e motivação para fazer grandes coisas em projetos pessoais. Isso acontece porque muitas pessoas não se sentem realizando algo significativo para si mesmas no trabalho. É em seu tempo livre, em interação com os seus pares em comunidades locais e virtuais, que estas pessoas fazem coisas que realmente importam para elas. Esta é uma grande oportunidade para o engajamento voluntário: há uma enorme quantidade de pessoas buscando sentido para as coisas que realizam.

Grupos de pessoas que colaboram voluntariamente representam hoje um grande poder competitivo contra as corporações globais. Pense em servidores Linux contra servidores Windows. Quem poderia tentar derrotar a Microsoft, uma empresa de 60 bilhões de dólares, com financiamento privado?

Em um futuro próximo, estas novas redes colaborativas vão desempenhar um papel importante na criação de soluções para as necessidades humanas. A grande maioria destes grupos contará com voluntários. As organizações tradicionais vão defender-se, tentando minar a confiança e o valor destes novos modelos de colaboração.

Charles Leadbeater, consultor de governos e empresas nas áreas de inovação e criatividade, levanta boas questões sobre o futuro da colaboração humana: “Podemos sobreviver com voluntários? Se tais modelos colaborativos são tão críticos, não precisaríamos de apoios e financiamentos mais estruturados? Que tipo de mudanças são necessárias nas políticas públicas e de financiamento, para tornar viáveis esses modelos de colaboração voluntária?” . Possivelmente, estas são as questões que governantes e políticos se farão num futuro próximo, diz ele.

Que grande impacto para a causa seria ampliar do nosso entendimento sobre voluntariado a criar pontes entre estes dois mundos. Esta é uma grande oportunidade global e um posicionamento estratégico para a causa do voluntariado. Grandes desafios para o futuro da humanidade, como terrorismo, mudanças climáticas, pandemias e migrações em massa podem se beneficiar destes modelos de colaboração voluntária. Estas são questões que, mais cedo ou mais tarde, devemos nos fazer.

As empresas estão também aproveitando estas novas formas de colaboração voluntária e usando os mesmos vocabulários e modelos de reconhecimento utilizados por programas de voluntariado. Recentemente, a edição de outubro de 2008 da Harvard Business Review trouxe o ótimo artigo: “A Revolução da Colaboração: Deixando que Voluntários Construam o seu Negócio”, de Scott Cook. Ele mostra maneiras inovadoras em que empresas utilizam o conhecimento coletivo de seus consumidores e o poder da colaboração entre eles para criarem melhores produtos e serviços.

Charlene Li e Josh Bernoff, em seu recente livro “Groundswell”, contam a história de Jeff Stensky: ele trabalha para uma companhia de energia elétrica como engenheiro. Em seu tempo livre, ele responde a perguntas do fórum de suporte da Dell Computadores, mesmo não tendo vínculo formal com a empresa e não sendo pago para isso. Em 10 anos de intensa participação nesta comunidade, Jeff postou 22 mil respostas sobre problemas de instalação de CD / DVD em computadores Dell. Suas respostas foram visualizadas mais de 2 milhões de vezes.

Os autores calculam que Jeff, sozinho, proporcionou para a Dell uma economia de 1 milhão de dólares em ligações de suporte que, tendo sido respondidas por ele online, deixaram de ser realizadas para a sua central telefônica de atendimento ao consumidor. A grande questão é: por que ele fez isso? Por que uma dedicação tão grande? Jeff responde: “Eu realmente gosto de ajudar as pessoas. O que me engajou foi isso: ouvir muito obrigado quando ajudo uma pessoa. “

Não são declarações similares que freqüentemente ouvimos dos voluntários que trabalham conosco em projetos sociais?

O que é marcante aqui é que quando analisamos as motivações de pessoas como Jeff (bons sentimentos de altruísmo, de validação e de pertencimento), vemos que eles são muito semelhantes aos sentimentos dos voluntários tradicionais que conhecemos. É algo que os economistas Fetter & Fisher chamaram de “renda psíquica”, na década de 1920. Renda psíquica é “o valor subjetivo de satisfação adquirida a partir de uma atividade”. Este é um conceito central para compreender a colaboração voluntária. Como os autores da “Groundswell” dizem: “a renda psíquica é gratuita – é paga com amor, não com dinheiro”.

A boa notícia é que há muitas pessoas procurando por “renda psíquica”. Isto é o que nos mantém tão ocupados como promotores de voluntariado. Existe um monte de gente como Jeff pelo mundo afora.

Em recente artigo na revista “Time”, Bill Gates afirma que, historicamente, empresas têm melhorado a vida de bilhões de pessoas. O problema é que bilhões de pessoas ainda são deixadas para trás e as empresas têm grande responsabilidade e potencial para ajudar a melhorar o capitalismo e torná-lo mais inclusivo.

Há uma infinidade de oportunidades de negócios para criar produtos sustentáveis, ao mesmo tempo em que se gera valor local, reduzindo desigualdades, melhorando saúde a qualidade de vida. Mas as empresas não vão fazer isso sozinhas. Elas precisam de pessoas. Seu pessoal vai fazer isso. E a boa notícia é: há um monte de gente boa trabalhando nas empresas, dispostos a colaborar, e nosso trabalho como promotores de voluntariado pode ajudar a influenciá-los positivamente.

Por último, penso que deveríamos olhar para as origens do voluntariado. Houve um grande valor espiritual nos primeiros seres humanos que saíram de seus caminhos para ajudar outros. É possível reforçar estes valores em todas as nossas iniciativas, sejam elas pessoais, coletivas, sociais ou empresariais. Temos também a oportunidade de trazer esses valores para um público mais amplo, as pessoas estão à procura de sentido naquilo que fazem. Vamos ampliar nossa visão e repensar o voluntariado como algo embutido em todos os aspectos das nossas vidas. Para os tempos incertos que estão chegando, os valores do voluntariado são hoje mais necessários do que nunca.

*Bruno Ayres, administrador com mestrado em Ciência da Informação pelo IBICT / UFRJ. É criador e coordenador geral do Portal do Voluntário / Comunitas (V2V Brasil). O Portal do Voluntário é hoje uma referência mundial em desenvolvimento de ferramentas para promoção do voluntariado em empresas e organizações da sociedade civil, tendo sido premiado no Brasil e no exterior. Juntamente com a equipe do Portal do Voluntário, criou a tecnologia V2V (Voluntário para Voluntário), uma ferramenta de redes sociais para gestão de programas de voluntariado que é usada por organizações, governo e empresas no Brasil e nos EUA. O V2V hoje tem 85.000+ usuários, desenvolvendo 12.000+ ações voluntárias em 64 países.

Questões ou comentários podem ser enviados para: bruno@v2v.net.