Prêmio Innovare seleciona ações inovadoras e que facilitem o acesso à Justiça com o tema Desenvolvimento e Cidadania

A nona edição do Prêmio Innovare, que tem como tema deste ano Desenvolvimento e Cidadania, vai reconhecer  e premiar mais uma vez autores de ações inovadoras e que facilitem o acesso à Justiça. As inscrições para a nona edição do concurso começaram no dia 1º de março.

Neste ano, a premiação especial reconhecerá práticas ligadas à Justiça e Sustentabilidade, em apoio à Rio+20 Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a ser realizada em junho deste ano.
 
O Prêmio Innovare foi lançado em 2004 no Ministério da Justiça, com a finalidade de propor melhorias para o sistema judiciário brasileiro por meio de ações inovadoras. Desde seu lançamento, foram apresentadas cerca de três mil práticas, disponíveis na internet na página www.premioinnovare.com.br. Segundo levantamento do Instituto Innovare, 82% das iniciativas inscritas continuam a ser empregadas e 76% dos entrevistados informaram que os resultados previstos foram alcançados.
 
Experiências
 
Os núcleos de Justiça Comunitária da Secretaria de Reforma (SRJ) do Ministério da Justiça são exemplo de iniciativa que foi multiplicada a partir da premiação. Teve início em 2004 com um projeto-piloto do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios e, após vencer o 2º Prêmio Innovare, a SRJ propôs transformar a boa prática em política pública nacional. Atualmente, 64 núcleos de Justiça Comunitária, que utilizam formas negociadas de resolução de conflitos para garantir os direitos do cidadão, estão presentes em 15 unidades da federação.
 
Os temas foram apresentados durante a primeira reunião do Conselho Superior do Prêmio Innovare, na qual estavam presentes o secretário de Reforma do Judiciário (SRJ) do Ministério da Justiça, Flávio Crocce Caetano, o diretor das Organizações Globo, Roberto Irineu Marinho, o presidente do Conselho Superior, Marcio Thomaz Bastos, além de diretores do Innovare e presidentes das associações parceiras.
 
Premiação
 
Os participantes irão concorrer a R$ 50 mil (exceto a categoria Tribunal) e podem se inscrever em cinco categorias: Juiz individual, Advocacia, Ministério Público e Defensoria Pública, além do Prêmio Especial, no qual o vencedor participará de intercâmbio para conhecer o sistema judiciário e autoridades da área jurídica de outros países. As inscrições serão realizadas pelo site da instituição (http://www.premioinnovare.com.br/).
 
Fonte: JusBrasil

Fundo Comgás seleciona projetos socioculturais

Esta aberto o período de recebimento de projetos para participarem da 5ª edição do Fundo Comgás. Este ano serão destinados R$ 2 milhões para projetos socioculturais desenvolvidos na área de concessão da Comgás (Região Metropolitana de São Paulo, Baixada Santista, Vale do Paraíba e Região Administrativa de Campinas).

Poderão se inscrever projetos socioculturais das mais diversas áreas, enquadrados no artigo 18 da Lei Federal de Incentivo à Cultural (Lei Rouanet), que tenham como objetivo fomentar empreendimentos que gerem aprendizado transformador capaz de promover relações sustentáveis.

O processo de seleção passa por quatro fases: habilitação onde são conferidos a documentação e os impedimentos previstos no regulamento, análise técnica pela área de Responsabilidade Social da Comgás, seleção pelo Comitê de Comunicação da Comgás e pela Comissão de Patrocínios Incentivados e por fim os projetos selecionados são apresentados para o conhecimento da Diretoria da Comgás.

Desde a sua criação em 2008, o Fundo já apoiou 33 projetos com a participação e mobilização de  muitos empreendedores socioculturais no estado de São Paulo, de quase 30 cidades e um investimento acumulado de R$ 5,5 milhões. No ano passado, o Fundo contou com 288 projetos inscritos, dos quais dez receberam o montante de R$ 1,5 milhão para realizarem suas atividades ao longo de 2011, beneficiando mais de 800 mil pessoas.

Confira o regulamento e as orientações de participação no passo-a-passo .

Inscrições até 21 de março de 2012.

Fonte: Fonte Comgás

 

 

Fórum articula empresas em prol de criança e adolescentes

Por Rodrigo Zavala (www.gife.org.br)

Cruzar informações e indicadores das mais diferentes fontes e, a partir deles, construir propostas e articulações para garantir os direitos das crianças e dos adolescentes da cidade. Essa é a iniciativa apresentada pelo Fórum Empresarial de Apoio à Cidade de São Paulo, em parceria com o Instituto Ethos, o Movimento Nossa São Paulo, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio).
 
Em evento que durou toda a manhã do ultimo dia 15, em São Paulo, o grupo não apenas chamou especialistas para defender os investimentos para o segmento, como apresentou uma série de ações para as quais as empresas interessadas podem contribuir. “O setor empresarial tem uma função importante não apenas econômica, mas política e cultural”, afirmou, o presidente do Instituto Ethos, Oded Grajew.
Segundo ele, o momento atual de progresso e amadurecimento brasileiro mostra que o problema do país não é a falta de recursos. “Falta transformar a questão da criança e do adolescente em uma grande prioridade nacional. Sabemos que esse esforço não trará um resultado imediato, pois de trata de uma mudança de cultura”.
O momento é oportuno, para o secretário-geral do GIFE, Fernando Rossetti, pois graças ao aumento de riqueza nacional, houve um crescimento exponencial do Investimento Social Privado por parte da empresa. Tal como atesta estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA),quando diz que o setor privado brasileiro destinou, em 2005, cerca de R$ 5,6 bilhões para ações sociais; em 2010, a cifra chegou a R$ 8,5 bilhões.
“O que se tem promovido nos últimos 20 anos, depois da (promulgação) da Constituição de (19)88 e do Estatuto da Criança e do Adolescente, é que esse público seja considerado verdadeiramente como prioridade absoluta. Um termo que pode ser resumido como colocar a criança e adolescente como centro do processo de desenvolvimento brasileiro”, argumentou o secretário-geral do GIFE, instituição que apoia a iniciativa.
Soluções
A partir dos Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município (Irbem), dos indicadores do Observatório do Cidadão e do Programa de Metas Agenda 2012, bem como das consultas às lideranças comunitárias e às crianças e adolescentes de diversas comunidades paulistanas, a iniciativa do Fórum Empresarial, o Unicef e o Nossa São Paulo conseguiu cruzar informações para avaliar quais são as regiões da cidade mais vulneráveis para esse público.
Com base nos dados apresentados, foram criadas as propostas para infância e adolescência “Como as empresas podem contribuir para garantir os direitos das crianças e dos adolescentes da cidade de São Paulo”. Trata-se de um material de referência para que o setor privado invista e empreenda – de forma organizada, sistêmica e eficiente -, ações e parcerias com outras empresas, organizações sociais, poder público e instituições de ensino e pesquisa.
 
“O objetivo é se trabalhar em áreas de grande vulnerabilidade para esse público. Entende-se as dificuldades do poder público em acompanhar as demandas dessas regiões, por isso é importante envolver outros atores”, alegou a coordenadora do Escritório do UNICEF em São Paulo, Anna Penido, lembrando que o conceito de prioridade, para crianças e adolescentes, ainda só existe em documento e na retórica.
Setor Privado
O objetivo do Fórum Empresarial de Apoio à Cidade de São Paulo é contribuir para o desenvolvimento justo e sustentável da cidade por meio da mobilização de empresas. E seus organizadores entendem que não é possível pensar numa sociedade melhor sem olhar cuidadosamente para a situação da infância e da adolescência no município. Assim, no ano que o Estatuto da Criança e do Adolescente completa 20 anos de existência, o fórum busca dar sua contribuição articulando as empresas para pensar e agir em favor desse público.
 
Enquanto isso, há pouco menos de um mês (21 de setembro), 11 instituições empresariais já haviam assinado uma carta de intenções para que cada empresa trabalhe também com a garantia dos direitos da criança e do adolescente. De forma prática, o movimento “Juntos pelo ECA”, que apóia a nova iniciativa, espera o cumprimento de 10 compromissos identificados como essenciais para defender o público.
“Temos sempre que lembrar que as leis não saem das estantes para se fazer valerem. Compete também a nós que elas realmente funcionem”, afirmou o consultor Edson Sêda, que participou da comissão redatora do ECA, durante evento que deu origem ao movimento.
No processo que se segue à assinatura do documento, destacam-se os seguintes compromissos declarados:
 
1) Criar um Comitê Executivo que coordenará ações compartilhadas entre as empresas, e que, a cada ano, será secretariado por uma delas;
2) Atuar em rede de forma intersetorial – governo, sociedade civil e empresas – em favor da garantia dos direitos da criança e do adolescente;
3) Compartilhar e aprimorar metodologias e experiências entre as empresas que investem nos direitos do público infanto-juvenil, aumentando o conhecimento mútuo entre essas empresas;
4) Mapear os investimentos de forma a colaborar para a melhor utilização dos recursos destas empresas em prol de ações em benefício das crianças e dos adolescentes;
5) Sensibilizar e mobilizar outras empresas, organismos multilaterais e demais organizações a aderirem ao Movimento Juntos pelo ECA com o objetivo de fortalecer o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente;
6) Estimular a destinação de parte do imposto de renda devido das empresas e pessoas físicas para os Fundos da Infância e Adolescência;
7) Cooperar para o fortalecimento dos Conselhos de Direitos e Tutelares, por meio de diagnósticos, planejamento e orçamento integrados com outras políticas; da melhoria na capacitação de gestores e técnicos, e da articulação entre os atores envolvidos;
8) Conhecer pactos, compromissos e outras iniciativas na área da criança e do adolescente para integrar ao Movimento Juntos pelo ECA;
9) Fortalecer a disseminação, para a sociedade, do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, por meio das iniciativas empresarias;
10) Estimular uma agenda positiva na mídia para informar e conscientizar a sociedade sobre a importância dos direitos das crianças e dos adolescentes.
A ação reúne os institutos Votorantim e Unibanco, as fundações Itaú Social, Telefônica, Vale e Arcelor-Mittal, o Sesi/Fiesp-SP, os bancos Santander, HSBC e Bradesco, a Gerdau e a Vale. A iniciativa também possui o apoio institucional do Instituto Paulo Montenegro, da OIT, ABMP, Childhood; FEBRABAN; UNICEF e Agência Nacional dos Direitos da Infância (ANDI).
No final do evento, realizado no dia 21, ficou-se entendido que as organizações signatárias se responsabilizariam a levar à frente essas iniciativas, cabendo a cada uma delas um papel importante nesse processo. Os organizadores pretendem sensibilizar, assim, a audiência e fomentar a articulação entre os atores ligados aos direitos de crianças e adolescentes, fortalecendo a rede de proteção à infância e adolescência, com uma visão sistêmica e integrada.
Resta saber, agora, como essas iniciativas irão se articular para além do evento do último dia 15. Afinal, oportunidades não faltam. 

*Rodrigo Zavala é editor de Conteúdo do GIFE.

O futuro do trabalho

No Novo Dicionário Aurélio profissão é sinônimo de carreira. Para o pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa, logo não será mais assim. “Uma carreira será feita de várias profissões”, prevê o especialista. Em entrevista à Ideal Comunitário, o professor defende uma educação que dê conta desse desafio e vê na aliança entre governo, empresas e terceiro setor a grande chance de o Brasil entrar de cabeça erguida no século XXI.

 

 

Com mais de 40 livros publicados, Antonio Carlos Gomes da Costa foi um dos autores do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e é referência nacional e internacional em educação e juventude.

Defensor do chamado “protagonismo juvenil”, que propõe, entre outras coisas, a participação ativa do adolescente na solução de problemas na escola, na comunidade e na sociedade, o pedagogo

mineiro aceitou, com prazer, o nosso desafi o. A convite da Ideal Comunitário, jovens da revista Viração e do Programa de Educação e Defesa Ambiental Ângela de Cara Limpa, da Sociedade Santos Mártires, enviaram suas dúvidas para o especialista.

Ao todo, foram quase duas dezenas de perguntas. E Antonio Carlos fez questão de responder todas elas, mesmo sabendo que não teríamos espaço suficiente para publicá-las. Discutiu-se a construção do Estatuto da Juventude, o papel da educação e alternativas para reverter o desinteresse dos jovens pelo conhecimento.

 

 

Entrevista

 

 

Um novo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou que a taxa de desemprego entre jovens de 15 a 24 anos é 3,5 vezes maior do que a dos adultos. Segundo a pesquisa, os jovens que enfrentam mais dificuldade para arranjar trabalho são os de baixa escolaridade, as mulheres e os moradores da periferia. O que fazer para reverter esse quadro?

 

Passamos por uma nova etapa do processo civilizatório da humanidade. Estamos saindo da Era do Capital, da Era Industrial, para a Era do Conhecimento. O trabalho está sendo cada vez mais condicionado pelas tecnologias da comunicação e da informação. Por outro lado, temos uma geração de jovens que deve fazer a travessia do mundo da educação para o mundo do trabalho. E, além disso, também terão de fazer a travessia do mundo industrial para o pós-industrial. A educação brasileira não deu conta dessa tarefa.

Uma política de juventude deve basear-se num tripé: educação de qualidade, educação profissional focada no mercado de trabalho e aproveitamento construtivo do tempo livre dos jovens com atividades de cultura, esporte e lazer.

É natural que nas periferias urbanas e nas zonas rurais pauperizadas essas oportunidades sejam escassas e de má qualidade, e muitas vezes sequer são oferecidas. Considero que a grande ação a ser realizada é formular uma política de juventude que seja fortemente direcionada para os segmentos mais vulneráveis dessa faixa etária. Trata-se de uma ação que deve ser redistributiva, mas também autopromotora, pois do contrário estaremos formando recorrentes crônicos das ações assistenciais do Estado.

 

Investir na profissionalização dos  jovens ajudaria a reverter esse quadro?

 

O cientista pernambucano José Leite Lopes foi aluno do cientista Albert Einstein na universidade americana de Princeton e um dos maiores físicos do Brasil. Em um de seus livros, Ciência e Libertação (Ed. Paz e Terra), ele relacionou a soberania e a independência de um país à ciência e à tecnologia. Foi o que a Coréia e o Japão fizeram e se tornaram grandes potências mundiais. Ele traçava um caminho desse tipo para o Brasil. Nos próximos anos, muitas profissões vão acabar, como aconteceu com a de datilógrafo ou de linotipista, e outras profissões que não existem hoje vão aparecer.

Vivemos, portanto, um momento interessante na educação profissional. O ensino técnico, que preparava a pessoa para ocupar um posto de trabalho (torneiro-mecânico, eletricista etc), agora prepara para o mundo do trabalho, para que a pessoa possa mudar de profissão ao longo da vida. Talvez as profissões dos jovens que estão ingressando hoje no mercado de trabalho acabem antes que a carreira deles. O que vai acontecer? Eles terão de mudar de profissão duas, três, quatro, cinco vezes. Uma carreira será feita de várias profissões. Infelizmente, a educação brasileira não está conseguindo acompanhar esse desafio.

 

O que, então, deveria ser feito?

 

As empresas não podem resolver sozinhas nenhum dos problemas brasileiros. Mas podem contribuir para a sua resolução fazendo o que no mundo empresarial é chamado de P e D, Pesquisa e Desenvolvimento de novos produtos. A função do Instituto Camargo Corrêa (ICC) na área de educação, por exemplo, é desenvolver soluções que não sejam alternativas às políticas públicas, mas sim alterativas, como um software replicável, que altere o funcionamento das políticas públicas. O desafio é desenvolver pesquisa e novas soluções para os problemas do país. Para isso, as ONGs precisam de ações intersetoriais, que abranjam o primeiro setor (o poder público), o segundo setor (o mundo empresarial) e o terceiro setor (organizações da sociedade civil, institutos e fundações empresariais). A aliança na base da ética da co-responsabilidade entre esses três setores é a esperança do Brasil para o século XXI. Se tivermos essa sinergia, vamos caminhar com botas de gato, andando sete léguas em cada passo. Se não fizermos isso, entraremos de cabeça baixa no século XXI. O Francisco Azevedo, diretor executivo do Instituto Camargo Corrêa, é um dos líderes dessa nova mentalidade no país. Nesse sentido, o ICC é um pioneiro. Faz parte das organizações que querem operar na lógica da co-responsabilidade.

 

“Trata-se da maior geração de jovens da nossa história. Portanto, hoje o grande desafioo é ajudar essa geração na travessia do mundo da educação para o mundo do trabalho”

 

O tema Jovens Negros e Negras foi colocado como prioridade  na  Conferência  Nacional de Juventude. Segundo o estudo do Ipea, o jovem negro é o que enfrenta mais dificuldade para arranjar trabalho. O que pode ser feito para acabar com essa desigualdade?

 

Nos anos 60, o presidente americano Lyndon Johnson criou uma série de ações afirmativas voltadas para a população negra. Os resultados, a meu ver, não foram exatamente os esperados em termos de impacto na promoção econômica, na ascensão social e na libertação cultural. As ações afirmativas devem ser nuvens passageiras. Não são, portanto, a verdadeira solução, mas sim o reconhecimento do nosso fracasso em fazer o que deveria ser feito. Em minha opinião, o grande caminho deve ter como centro a educação de qualidade para todos seguida de educação profissional, de oportunidades culturais e outras maneiras construtivas de utilização do tempo livre. Penso que o assistencialismo é uma solução emergencial e que só deve ser usado em curtíssimo prazo, quando não houver outra alternativa.

 

A solução para a inclusão desses jovens é, portanto, melhorar a educação?

 

É preciso melhorar a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio para todo mundo chegar à universidade em condição de disputar de igual para igual. Os jovens negros precisam de ações afirmativas não porque são negros, mas porque a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio não os prepararam adequadamente para o Ensino Superior. O que um ser humano se torna ao longo da vida depende das oportunidades que teve e das escolhas que fez. Temos de preparar as novas gerações para aproveitar as oportunidades e para fazer as escolhas certas. Não adianta ter as oportunidades e fazer escolhas erradas ou fazer escolhas certas e não ter oportunidade. Temos de dar para os nossos jovens a oportunidade de ter oportunidade e de fazer a escolha certa.

 

Um dos pontos discutidos na Conferência Nacional  de  Juventude  foi  o  jovem  e  o  trabalho.  Entre as prioridades apontadas nesta área estão crédito para a juventude e construção de um marco legal que viabilize o cooperativismo, a  economia  solidária  e  o empreendedorismo. Como o senhor avalia as propostas?

 

Estamos vivendo uma mudança profunda no processo civilizatório da humanidade e, portanto, no mundo do trabalho. A globalização dos mercados e o advento das novas tecnologias levarão a um processo que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) vem chamando de desmaterialização do trabalho. Diante disso, o ideal de pleno emprego tornou-se algo praticamente inalcançável na nova economia. O caminho, então, deverá ser criar alternativas de trabalho sem a criação de emprego. Nesse caso as opções discutidas na Conferência são o caminho que educadores, sociólogos e economistas têm vislumbrado para garantir trabalho e geração de renda para a juventude no mundo do trabalho, no qual o emprego tende a se tornar cada vez mais escasso. As reivindicações dos jovens (oportunidades de protagonismo, empreeendedorismo, educação profissional e utilização construtiva do tempo livre, entre outras) são justas e concretas. Hoje, no Brasil temos de fazer isso para entrar de cabeça erguida no século XXI.

 

Como preparar os jovens para esse novo mundo do trabalho?

 

Com a queda da taxa de natalidade da mulher brasileira, nunca mais o Brasil terá um percentual de jovens na sua população como temos hoje. Trata-se da maior geração de jovens da nossa história. Portanto, hoje o grande desafio é ajudar essa geração na travessia do mundo da educação para o mundo do trabalho. O artigo 2 da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) fala que a educação é direito de todos e dever da família e do Estado e terá como base os princípios de liberdade e os ideais de solidariedade humana. E quais são os fins da educação brasileira? O artigo 2º da LDB responde: a formação plena do educando, a sua preparação para o exercício da cidadania e a sua qualificação para o trabalho. Ou seja, queremos formar um jovem que seja autônomo como pessoa, solidário como cidadão e competente como profissional. Esse é o marco direcional da nossa política de juventude. E como você trabalha para formar pessoas, cidadãos e profissionais? Precisamos construir um banquinho de três pernas. A primeira perna é Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio de qualidade. A segunda é a educação profissional, que deve preparar o jovem para ingressar no mundo do trabalho, para ter uma ocupação, serviço ou profissão que lhe permita obter emprego e renda. Por último, precisamos formá-lo para ser um cidadão solidário. Esse é o desafio da juventude.

 

De acordo com dados do Censo 2005-2006 do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE), a faixa etária que mais recebe investimento social privado dos associados do grupo é a dos 15 aos 24 anos. O que falta para conseguirmos eficiência e eficácia nos projetos voltados para esse público?

 

No Brasil, não temos tradição de fazer políticas em conjunto para a juventude. Nossas ações, até aqui, têm sido fragmentárias e pontuais. Isso diminui a relevância e o impacto em face da magnitude da problemática a ser enfrentada. Hoje, o Brasil possui mais adolescentes e jovens do que crianças. A composição etária da nossa população mudou muito nos últimos dez anos. Portanto, o que eu recomendo são ações intersetoriais desenvolvidas dentro de uma ética de co-responsabilidade, abrangendo o poder público, o mundo empresarial e o terceiro setor. O investimento social privado, representado pelos integrantes do GIFE, é insuficiente para fazer frente a um desafio dessas dimensões.

Entrevista publicada na Revista Ideal Comunitário, do Instituto Camargo Corrêa, n.º 03 de julho de 2008.

As demais edições da revista estão disponíveis no site http://www.institutocamargocorrea.org.br/ideal.aspx

Imagem das Empresas Socialmente Responsáveis

Ações institucionalizadas de Responsabilidade Social alavancam reputação das empresas

Doar alimentos a grupos carentes, financiar reformas em uma instituição escolar, patrocinar um evento comunitário ou esportivo, plantar mudas de árvores… Ações isoladas como essas, de engajamento comunitário e ambiental por parte das grandes empresas, têm definido durante muito tempo o entendimento de responsabilidade social corporativa. Algumas empresas até definem erroneamente tais empreendimentos, soltos como partes de algum programa empresarial de cidadania corporativa. Porém, o que o brasileiro hoje demanda – e, sobretudo, que define com força a respeitabilidade que sente pelas empresas – está muito mais próximo de iniciativas institucionalizadas de RSE do que medidas emergenciais ou práticas avulsas de sensibilidade socioambiental.

Pesquisa da Market Analysis nas nove principais capitais do país revela que a imagem das grandes empresas melhora, e muito, quando elas desenvolvem atividades institucionais de longo prazo, antes que emergenciais, tais como parcerias com organizações sociais, criação de fundações filantrópicas ou mesmo quando elas permitem que seus funcionários tirem dias de folga para realizar trabalhos voluntários.

Das três opções de institucionalização possíveis, a parceria com ONGs ou instituições de caridade é a que mais desperta empatia pela empresa por parte do consumidor médio: sete em cada dez respondem que a imagem da empresa que faz tais parcerias melhora muito. Quando se trata de viabilizar ações de voluntariado ou formalizar uma fundação própria, o impacto positivo de reputação dessas ações continua sendo majoritariamente positivo, mas não com a força das parcerias com entidades independentes da sociedade civil. Essas diferenças parecem apontar para uma preferência entre os consumidores por iniciativas validadas externamente e que reúnam atores autônomos (como as ONGs ou instituições de caridade), capazes inclusive de dar um aval objetivo tanto nas intenções como nos resultados concretos obtidos a partir do investimento social das corporações.

Quem reage mais favoravelmente a esta opção de RSE institucionalizada? Embora o apoio seja alto, nem todos os consumidores demonstram a mesma sensibilidade. Algumas características pessoais, como o grau de interesse por assuntos de cidadania corporativa ou o engajamento em conversas sobre a conduta das empresas, claramente apontam diferenças importantes. Assim, o efeito positivo de estabelecer parcerias é muito mais intenso entre aqueles que expressam alto interesse por RSE (72%) do que entre os que permanecem desinteressados (58%), e o mesmo ocorre entre aqueles que se envolvem muito freqüentemente em conversas sobre o comportamento das empresas (79%) e aqueles que permanecem apáticos (67%).

Mas não se trata apenas de quem já está predisposto culturalmente a dar valor a tais ações. Por exemplo, quem acha que o governo deveria intervir mais para estimular ações de sustentabilidade socioambiental das empresas está menos predisposto a transferir uma boa imagem para aquelas empresas parceiras de instituições da sociedade civil. Em outras palavras, desenvolver parcerias de sucesso com ONGs pode resultar, também, em uma estratégia que minimize incentivos para o governo intervir e regulamentar a esfera de atuação corporativa.

Ficha técnica
Entrevistas pessoais por amostragem probabilística realizadas com 805 adultos (18 a 69 anos) nas nove principais capitais do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Brasília e Goiânia. Dezembro, 2007. Margem de erro: ± 3,45%.

Um último dado relevante é que a opção de formar parcerias com ONGs redunda em benefícios de imagem, tanto para consumidores que trabalham em empresas de pequeno e médio portes, como para aqueles empregados de corporações com mil ou mais funcionários. É, nesse sentido, a alternativa que reúne o maior consenso sem importar o âmbito de trabalho do entrevistado (já as outras duas opções tendem a ser privilegiadas particularmente por aqueles que trabalham para as maiores corporações do país).

Naturalmente fica pendente a resposta sobre que tipo de parceria e quais ONGs e instituições de caridade emergem como as opções mais coerentes para uma determinada empresa ou setor. Empresas líderes da sustentabilidade em setores geralmente questionados pelo seu impacto ambiental, como o petroleiro e o químico, ou pelo seu baixo impacto social, como o bancário, têm sido capazes de resolver essa questão de maneira competente, consultando seus diferentes stakeholders e conhecendo os valores e objetivos priorizados pelas potenciais parceiras. Uma das conseqüências de tais decisões é que esses pioneiros da RSE conseguem capitalizar positivamente suas ações institucionalizadas em reputação corporativa, mesmo quando o setor como um todo é visto de modo crítico.

O quanto a sua impressão sobre
uma empresa melhora quando
você descobre que a empresa
Faz parcerias com ONGs ou com instituições de caridade
70%
Permite que funcionários tirem folga para realizar trabalho voluntário para instituições de caridade ou entidades comunitárias
59%
Criou sua própria fundação filantrópica
55%

 

Ficha técnica:
Entrevistas pessoais por amostragem probabilística realizadas com 805 adultos (18 a 69 anos) nas nove principais capitais do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Brasília e Goiânia.
Margem de erro: +-3,45%.
 Market Analysis
Fonte: Revista Filantropia – OnLine – nº180

Especial: Financiamento internacional – Quem define a agenda?

*Barry Knight and Caroline Hartnell.

Quem define a agenda: o fundador ou o beneficiado? Esta pergunta é tão velha quanto o financiamento. No entanto, recentemente mudou-se a forma de discuti-la. O ímpeto, dado nas últimas rodas de discussões, se deve ao surgimento do filantrocapitalismo ou “nova” filantropia, um debate que tem sido energizado pela publicação do livro de Michael Edwards: “Simplesmente Um Imperador a Mais”.

“Quem define a agenda?” é uma pergunta retórica. Como disse Firoze Manji editor da revista “Pambazuka News”: “Somente os financiadores têm dúvidas sobre a resposta a esta pergunta”. Júlia Unwin, no “The Grantmaking Tango”, [1] mostra que as decisões dos financiadores têm papel fundamental na formação da sociedade civil.

Ela receia que os financiadores públicos possam influenciar a independência da sociedade civil e introduz um caloroso debate na Grã-Bretanha perguntando-se se empresas sem fins lucrativos deveriam trabalhar com contratos de serviços públicos. Quando o empurrão vinga, restam poucas dúvidas de que os financiadores estão na direção certa. Como depois de tudo eles pagam pelo que fazem, a decisão deles é a que conta.

Ainda não se sabe se a verdadeira questão é a tendência atual de financiamento (que não é somente uma reserva da “nova” filantropia), desviando-se cada vez mais da tomada de decisão em direção aos financiadores do Norte e mais longe dos países em desenvolvimento. Será que se as fundações já estabelecidas também estão adotando a retórica e as práticas na nova filantropia? Michael Edwards cita a Gates “supostas preocupações de virar uma Fundação Ford”, mas parece que o enfoque deles tem-se aproximado.

Em direção a uma filantropia mais estratégica

Está claro que a tendência em direção a uma filantropia mais estratégica tem estado em ascensão já por algum tempo. Esta tem sido orientada em parte pelo pensamento das fundações a respeito do impacto do seu trabalho, direcionando-se para um foco mais amplo, objetivos mais claros e programas que dependem de menor número de grandes doações.

Programas reativos às doações são cada vez em menor número apesar de notáveis exceções como a Fundação Esmee Fairbairn, uma das maiores fundações da GB, que mudou para doações reativas mais abertas a partir de Janeiro de 2008. Algumas fundações têm chegado a ser mais como “fundações operacionais” seguindo o modelo alemão onde não há doações: somente contratos.

Filantrocapitalismo é uma forma extrema de estratégia filantrópica. Esta “nova” filantropia, como descrita por Michael Edwards, tem três características principais. Primeiro, implica no gasto de largas quantidades de dinheiro derivados na sua maioria de lucros obtidos no setor financeiro e de TI nas últimas duas décadas. Segundo, se baseia na crença de que os métodos empresariais podem resolver problemas sociais uma vez que são reconhecidos por serem superiores aos outros métodos utilizados no setor público ou na sociedade civil. Terceiro, alega que estes métodos podem alcançar não só transformações sociais como também aumento à acessibilidade aos benefícios sociais e aos serviços. Edwards desafia estes dois últimos em “Simplesmente um Imperador a Mais”.

Filantrocapitalismo e Controle do Doador

Enquanto os críticos do filantrocapitalismo têm a tendência de centralizar suas queixas na inadequação para fomentar mudanças sociais de longo prazo ou justiça social, uma das conseqüências despercebidas do filantrocapitalismo é o receptor do dinheiro passar a ser um mero agente do doador e sua perspectiva no mundo pouco acrescenta: um perigo reforçado no artigo da página 36, com o relevante título: “Subempreitada ou Visionários?”.

No entanto, o tema de quem controla o que é vital na sociedade é importante porque as pessoas que estão oprimidas ou marginalizadas desejam estar no controle do seu próprio destino ao invés de serem tratadas como objetos de caridade ou peão de um grande jogo de xadrez da solução dos problemas mundiais.

Qual é a compatibilidade do controle local com o foco orientado a objetivos da filantropia “estratégica” que está virando progressivamente a norma? Não muito, de acordo com Tade Aina, Representante da Fundação Ford do Leste da África, como manifestou na reunião de Maio em Nairobi, onde ela descreveu algumas das características do que ela chama de “nova arquitetura da assistência”.

As doações tendem a chegar somente para as maiores, mais formais, melhor estruturadas instituições possuidoras de estruturas aceitáveis para o consórcio doador, embora os fundos estejam relacionados a programas ou projetos. “Eles não dão apoio a investimentos em fundações ou em propriedades de instituições locais”. Isto também significa “menos apoio flexível para assuntos definidos e adotados de forma autônoma pelas instituições locais” e eles “terão que se encaixar no planejamento nacional de desenvolvimento ou na estreita visão dos grandes doadores privados”.

Ele fala sobre o “consenso emergente de procedimentos e metodologias que predomina nas empresas e negócios liderados pelos filantrocapitalistas, onde também se agregam antigas filantropias como a Fundação Rockefeller e sua insistência em manter uma visão estreita, de alto impacto, com resultados claros e mensuráveis”.

A Depilação e a Palidez do Controle do Doador

De Bretton Woods ao desenvolvimento comunitário

Estes temas estão longe de serem novidade. Com o filantrocapitalismo existe um sentimento de que estamos voltando 60 anos para criar o atestado de Evan Durbin de 1949 que disse: “agora todos somos planejadores”. Esse enfoque ganhou expressão na conferência de Bretton Woods de 1944, que planejou o mundo do pós-guerra demonstrando uma imensa confiança de que o mundo poderia ser regido pela combinação de boa vontade, cooperação internacional e novas instituições financeiras.

Este etos de planejamento, derivado originalmente do socialismo de Fabian, de Beatrice e Sidney Webb, espalhou-se rapidamente pelo mundo não somente na Europa como também em grande parte da África e da nova Índia independente.

Nos idos de 1955, esse enfoque de cima para baixo foi questionado pelo Movimento da Comunidade de Desenvolvimento do Terceiro Mundo. Era inspirado pela “teoria populista” cuja virtude baseia-se no fato de que as pessoas simples, maioria absoluta nas tradições coletivas, são as que melhor sabem o que desejam e precisam. Essa perspectiva levou a uma série de diversos enfoques, onde o denominador comum entendia que as pessoas comuns eram tratadas indevidamente.

Apesar de que da teoria populista dever muito às perspectivas de auto-organização derivadas das idéias anarquistas do século XIX (com as idéias de Peter Kropotkin e com as dos ativistas políticos como Mahatma Gandhi), muitos dos proponentes do enfoque participatório eram missionários e colonizadores.

Na verdade, o Escritório Colonial Britânico do Comitê de Aconselhamento em 1944, elaborou um relatório de Educação Massiva Nativa nas Colônias, onde promovia o controle local como meio de oferecer serviços na agricultura, saúde e serviços sociais. Em 1950, a idéia de desenvolvimento comunitário foi destaque nos textos das Nações Unidas e, ao final da década, desenvolveu-se uma teoria bem articulada. (2)

O desenvolvimento Comunitário alcança sua apoteose durante a Guerra e também à custa da pobreza na América de 1960. O motivo principal no enfoque definido no Ato da Oportunidade Econômica era a “participação máxima possível”. A teoria consistia em que a participação dos mais pobres criaria oportunidades que reduziriam a pobreza que, por conseguinte, levaria à Grande Sociedade. No entanto, como veremos adiante, tudo terminou muito mal.

Do crescimento até a revolução associativa

Nos anos de 1970, declinou a participação como estratégia interventora. Em alguns países as expectativas eram grandes demais, originando muita decepção até nos ativamente envolvidos. Em outros países, corrupção, má administração, e ineficiência significaram que os recursos designados para fomentar a participação das pessoas comuns nunca chegaram a elas.

Como conseqüência, a participação foi substituída pela ênfase em crescimento, transferência de capital, modernização da indústria pesada e da economia. Na África, muitos governos continuaram utilizando a retórica da participação, mas fracassaram em fornecer recursos para que isto se tornasse realidade. Em 1978, na Índia, o governo abandonou seu programa de desenvolvimento comunitário.

Dez anos depois, pudemos observar a abertura da América do Sul, África do Sul e Europa Central e do Leste e, mais uma vez, o foco mudou totalmente. A “sociedade civil” teve uma vitória clara nas revoluções de 1989 e no desmonte do apartheid na África do Sul. O poder popular era visto como parte chave nas mudanças e a idéia fora lapidada formalmente pela “Revolução Associativa” de Lester Salamon.

Ele disse que o crescimento das empresas sem fins lucrativos no final do século XX poderia ser comparável e politicamente significante com o crescimento do estado-nação do final do século XIX. As fundações, empresas sem fins lucrativos, universidades e departamentos governamentais, mudaram abruptamente a linguagem nos seus programas de empresas sem fins lucrativos para prosseguir com esta nova ideologia secular de dar apoio às pessoas em suas próprias instituições.

O surgimento da “nova” filantropia

Na virada do milênio, este novo otimismo começou a desaparecer. Não estava claro o que a sociedade civil oferecia e, um número significativo de financiadores, deu marcha a ré. Uma delas foi a Atlantic Philanthropies, que depois de ter decidido gastar sua doação num período de 12 a 15 anos, resolveu centralizar suas doações em apenas quatro bem definidos e “estratégicos” programas onde poderia sentir que haveria impacto máximo e conseguiria uma “herança” visível.

Uma série de livros e artigos chamou a atenção para a lerdeza da sociedade civil e a dificuldade em aparelhá-la para desenvolver uma estratégia de doações com o intuito de obter resultados mensuráveis.

Em 2001, a fundação Bertelsman deu início à Rede de Filantropia Estratégica. Apesar do programa não ter tido durabilidade, a idéia de que os doadores deveriam ser estratégicos e não reativos, ganhou adeptos. O surgimento da “nova” filantropia com suas características concomitantes de planejamento de cima para baixo, fecharam o círculo iniciado com Durbin.

Moda em Filantropia

Então, aí está o papel da moda na filantropia. Como disse Ian Smillie, fazendo eco à letra de Joni Mitchell em “The Circle Game”, “Os pôneis pintados… giram e giram”. [3]. No âmbito da filantropia, o papel dos shows de moda aparece claramente no seu idioma. Novos termos são constantemente inventados.

Dificilmente naqueles dias alguém dominaria o enfoque “de cima para baixo” que parece ser evidentemente indesejável porque hoje em dia, predomina o de “baixo para cima” que soa melhor. Substitua “para cima” por “reativo” e “para baixo” por “pró-ativo” que a forma das coisas muda. “Reativo” soa ineficiente e antiempreendedor; enquanto “pró-ativo”, soa mais positivo.

Da mesma forma pensem em “nova” filantropia com sua persuasiva conotação de eficácia empreendedora, orientada para impactar, orientada para resultados e enfoques estratégicos. Quem gostaria de associar-se à filantropia “velha” ou “tradicional”? Parece que cada vez menos pessoas: nem a filantropia “velha” nem a “tradicional”. “Nova” é uma maneira esperta de colocar uma nova embalagem no velho e interminável debate.

A moda se repete porque, assim como o comprimento das bainhas ou o tamanho dos saltos, só existem limitadas variações: se os saltos são muito altos, você cai. Ao longo de 60 anos nós temos estado num ciclo que balança da exortação do Chairman Mao, “Que centenas de flores floresçam” à forma mais corporativista do dirigisme Francês. Uma geração anterior falava de “planejamento” versus “laissez-faire”.

É a linguagem nova desenhada meramente para maquiar o fato de que velhos e intratáveis problemas ainda não foram resolvidos? Ou é o caso de velhas e conhecidas atitudes que emergem com uma nova roupagem? Um fato positivo disto é que adotando novos termos dar-se-á vida e energia renovadas ao debate que ainda está por vir. O quadro da velha filantropia/nova filantropia pode ser compreendido sob este prisma.

Nada de bala mágica

Qualquer um que esteja tentado a pensar que existe só uma resposta correta para o balanço do poder entre o doador e o beneficiado, deveria ler o clássico dilema de Marris e Reins, “Dilemmas of Social Reform”. (4) Se houve um momento na história em que os doadores realmente tentaram acertar isto, foi durante a “Guerra à Pobreza” na América dos anos 60.

Aqui, os recursos de cima para baixo, combinados com análise racional e avaliação científica, levaram a desenvolver programas de cima para baixo, porém o planejamento permitiu às pessoas do lugar opinar sobre como os programas deveriam ser implementados no local. Por exemplo, tanto o Programa de Ação Comunitária como o Programa Cidade Modelo tinham como objetivo dar autonomia aos mais pobres da sociedade americana e permitir transformações de baixo para cima.

No entanto, tudo deu errado. Muitas comunidades afro-americanas não gostaram do programa porque sentiam que o slogan “participação máxima possível” era simbólico e condescendente, permitindo aos doadores fugirem de temas reais como a desvantagem estrutural e discriminação. A Prefeitura não gostava dos programas porque sentia que estes permitiam que as organizações comunitárias usurpassem seus poderes de direito.

Os trabalhadores profissionais não gostavam deles porque achavam que o programa “Nova Carreira Para o Pobre” ameaçava seus empregos. Sem o acordo básico definido claramente sobre que programa é para quem e quem se beneficiará com ele, certamente se desmancharia da mesma forma como aconteceu com a Guerra Contra a Pobreza dos EUA.

Qualquer um tentado a realizar mudanças, seja de cima para baixo ou de baixo para cima, tem que lidar com as realidades da vida no chão. Por isso que nenhuma fórmula ou bala mágica funcionará. Ambos, o doador e o beneficiado têm que confrontar os direitos adquiridos, as formas de trabalho estabelecidas, os processos institucionais, as influências da agência, as atitudes arraigadas e as normas para determinar o passado e o futuro da ajuda oficial para o desenvolvimento.

A combinação de enfoques

A dependência somente numa forma de intervenção – seja esta um modelo derivado de empresas ou um modelo derivado de teorias de desenvolvimento comunitário – é insuficiente para quase a totalidade das circunstâncias sociais onde os doadores desejam fazer a diferença. É preciso combinar os enfoques e o ponto central é que qualquer intervenção precisa ser política e socialmente sensível às condições locais. É axiomático que essas condições locais avaliem que nunca haverá somente uma fórmula mágica. No entanto, isto não significa que nós não podemos aprender sobre o que funciona e o que não funciona.

Nesta edição da Alliance, nós estipulamos alguns enfoques promissores pelos quais as organizações do Sul começam a encontrar formas de montar sua própria agenda e negociar em termos iguais com os doadores do Norte.

Sheila Richards, Oscar Rojas e Santosh Samal (clique aqui) descrevem como as fundações do Sul, trabalhando em sociedades divididas, podem agir como uma ponte útil ente o Norte e o Sul. Estes “doadores ativistas” fazem parte das comunidades marginalizadas que os doadores do Norte podem estar tentando alcançar já que ao investir neles se muda a carga da tomada de decisão do Norte para o Sul.

A TrustÁfrica, de acordo com Bhekinkosi Moyo (clique aqui), já começou a equacionar o campo entre Norte e Sul ao intervir na definição das agendas de reunião que dão à TrustÁfrica a legitimidade de juntar-se com os doadores do Norte em termos igualitários e o Fundo do Desenvolvimento de Mulheres Africanas está fazendo uma aproximação semelhante, montando uma agenda filantrópica feminista através dos seus beneficiários.

*Barry Knight é Secretário da CENTRIS.
E-mail: barryknight@cranehouse.eu

**Caroline Hartnell é Editora da Alliance.
E-mail: caroline@alliancemagazine.org
Notas:
[1]. Julia Unwin (2005) O Tango das Doações. The Barning Foundation, Londres. www.barigfoundation.org.uk/GrantmakingTango.pdf.

[2] P. Kuenstler (1960) “New Community Organization”. Farber and Farber, Londres.

[3] I Smillie (1995) “The Alms Bazaar: Altruism Under Fire – Non-Profit organizations and international development”. Intermidiate Technology Publications, Londres.

[4]. P Marris and M Rein (1972) “Dilemmas of Social Reform”. Penguin Books, 2ª. Edição.

Publicado em http://www.gife.org.br/alliancebrasil

O filantrocapitalismo torna-se global

Matthew Bishop*

Quando em 2006, cunhei o termo “filantrocapitalismo” num extenso artigo para o The Economist, eu não tinha idéia que poderia desencadear tanto debate. É caricaturado freqüentemente como sendo apenas um interesse em desempenho e mensuração, mas eu acredito que seja muito mais do que isso. Acredito que marca uma nova partida radical na filantropia e em capitalismo com conseqüências sociais e políticas de longo alcance. [1]

Filantrocapitalismo envolve algumas das pessoas mais talentosas e de sucesso entre as quais está Bill Gates, colocando suas mentes nos problemas como a educação, doenças, mudanças climáticas e terrorismo. O que eles têm em comum é que eles são homens e mulheres vencedores por esforço próprio e que fizeram fortunas espetaculares reconhecendo tendências, desafiando ortodoxias e abraçando as oportunidades de globalização e de mudanças tecnológicas. Além de terem enormes fortunas para doar, eles têm os relacionamentos, as influências e o entendimento de como funciona o mundo.

Eles estão longe de qualquer cristão na forma de como doar. Alguns, geralmente do setor financeiro, aplicaram seu talento para investir em doações. Warren Buffett, como investidor, tende a selecionar um punhado de empresas das quais é acionista há décadas e tem repetido esta mesma fórmula para doar boa parte do seu dinheiro para o homem que ele enxerga como o “melhor do negócio”, Bill Gates.

O chefão Britânico dos fundos Hedge, Christopher Cooper-Hohn, um investidor financeiro, está adotando um enfoque baseado em medições para doar por meio dos Fundos da Fundação de Investimentos para Crianças que ele criou com sua esposa Jamie. Outros preferem o enfoque da grande visão, como é o caso de Ted Turner que, com sua promessa de $1 bilhão para sustentar as Nações Unidas em 1997, marcou o início da era do filantrocapitalismo.

Em contraste a Gates, que está liderando grandes iniciativas para resolver grandes problemas globais, outros filantrocapitalistas estão promovendo mudanças de baixo para cima. Jeff Skoll, da eBay, está apoiando iniciativas sociais e ajudando a dar uma novo alento de vida ao setor do “sem fins lucrativos”. A estrela do rock, Bono, vê seu papel em mobilizar a opinião pública utilizando o poder da “celantropia” para defender grandes aumentos de ajuda para os países em desenvolvimento, trabalhando por meio da sua organização DATA (Dívida, AIDS, Comércio, África) a força atrás da campanha “One”.

Como o capitalismo, o filantrocapitalismo é um fenômeno global, com uma nova geração de filantropos ambiciosos emergindo do mundo em desenvolvimento. Pessoas como o bilionário mexicano das telecomunicações, Carlos Slim, que prometeu doar $10 bilhões para lutar contra a pobreza na América Latina ou o magnata indiano de softwares, Azim Premji, que está levando educação para crianças pobres, trazem novas percepções e competências para o desafio do desenvolvimento. Talvez, o melhor exemplo de todos seja o do chefão sudanês de telefonia móbil do Sudão, Mo Ibrahim. Sua experiência nos negócios o convenceu que a pobreza da África será derrotada somente pelas mudanças políticas; ele usa seu prêmio anual de melhor político africano outorgando-o a quem dê abertura para debater as lideranças políticas.

A força do capitalismo está em criar um ambiente onde a inovação é premiada e o filantropismo promete levar esse dinamismo para o mundo das doações. É desafiante para os titulares, é tumultuante e erros serão cometidos; no entanto a sua “destruição criativa” poderá trazer não somente um “boom” nas doações como também um surto com seu impacto.

Alguns críticos estão preocupados que o filantrocapitalismo poderá, de alguma forma, minar a democracia e a sociedade civil e corroer a responsabilidade governamental. O medo ao poder político dos ricos não é novidade, mas moldar o rico como inevitavelmente auto-indulgente e antidemocrático está errado. Desde a primeira idade de ouro da filantropia moderna na Europa Renascentista, o rico freqüentemente tem mostrado ser mais responsivo às necessidades dos pobres do que o estado. Duzentos anos atrás, William Wilberforce liderou a campanha contra o comércio escravocrata. Hoje, filantropos como George Soros, estão patrocinando as mudanças democráticas por todo o mundo.

Certamente, há necessidade de ser transparente e os ricos precisam ser responsabilizados pelos resultados de suas filantropias e não só celebrar o tamanho delas. Estes são os princípios que deveriam alinhavar o novo contrato social entre os ricos e o resto.

O Filantrocapitalismo terá sucesso em alcançar seu considerável potencial somente se seus expoentes levarem a sério os desafios de comportarem-se como empresários para lidar com os grandes temas de hoje. Eles precisam ser inovadores, ponderados, analíticos, induzidos, cooperativos e, como não existem parâmetros simples de sucesso em filantropia, brutalmente honestos e autocríticos sobre como estão indo. Felicito-os para que tenham sucesso.

Matthew Bishop é Redator Chefe de Negócios e American Bussines Editor do The Economist. E-mail mattewbishop@economist.com

1 Este artigo baseia-se numa abertura de um encontro para discutir Filantrocapitalismo patrocinada pelo Fórum Global de Filantropia. Os pontos de vista e idéias expressos nele foram discutidos extensivamente em: “Filantrocapitalismo: Como o Rico Pode Salvar o Mundo”, de Matthew Bishop e Michael Green, a ser publicado em desembro.

Publicado em http://www.gife.org.br/alliancebrasil/noticias.php?codigo=119