Líder do governo apresenta projeto de lei para substituir a MP das Filantrópicas

O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), informou nesta terça-feira (2) que entregou o projeto de lei do Senado que substituirá a Medida Provisória (MP) das FilantrópicasEntenda o assunto . A MP 446/08 foi devolvida ao Poder Executivo pelo presidente da Casa, Garibaldi Alves Filho, no último dia 19. Garibaldi informou que encaminhará o projeto para as Comissões de Assuntos Sociais (CAS) e de Assuntos Econômicos (CAE), que analisarão a matéria conjuntamente.

A proposta deverá ser votada em decisão terminativa, seguindo diretamente para a Câmara dos Deputados, completou o líder. Jucá também disse acreditar que a tramitação será rápida, pois o projeto contaria com o apoio das lideranças partidárias, inclusive da oposição. Depois que a matéria for aprovada pelas comissões, Jucá disse que retirará o recurso apresentado à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) contra a decisão de Garibaldi de devolver a MP.

Na justificação do projeto, Jucá afirma que a matéria pretende dar uma solução ao grande número de pedidos de certificação pendentes no Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS).

O líder do governo explica, na justificativa: “Talvez não tenha ficado claro no texto da MP 446/08 que a decisão em favor das entidades não impede nem anula os efeitos de quaisquer investigações relativas a fraudes ou irregularidades por elas eventualmente cometidas. A certificação não é uma anistia; é apenas uma solução que elimina um gargalo do poder público, sem a qual os relevantes serviços prestados por aproximadamente metade das entidades filantrópicas atuantes no Brasil poderia sofrer severas interrupções. Sem essas entidades, os sistemas brasileiros de saúde, educação e assistência estariam gravemente comprometidos”.

O líder do governo acrescenta que os pedidos de certificação de entidade beneficente (ou recursos a pedidos) já deferidos em virtude da vigência da MP 446/08 serão encaminhados aos ministérios competentes (da Saúde, da Educação e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome) “para que não haja dúvidas de que o devido controle será exercido em favor da sociedade e em prazo razoável, sem qualquer espécie de anistia. Dessa forma, teremos o aprimoramento do controle sem qualquer ameaça de favorecimento a entidades inidôneas e, mais importante, sem prejuízo algum para a sociedade brasileira”.

Já as entidades que tiveram certificados renovados em virtude da MP 446/08 terão os processos reavaliados até 31 de dezembro de 2009 e tais certificados serão considerados provisórios até a reavaliação. Essas entidades ficarão sujeitas à fiscalização do Ministério Público, da Polícia Federal e da Receita Federal. Se constada alguma irregularidade, a certificação será considerada cancelada desde a data de ocorrência da infração.

Dentre os requisitos exigidos no texto do projeto para que entidades certificadas consigam isenção do pagamento de contribuições para a Seguridade Social está a apresentação de certidão negativa de débitos relativos a tributos da Receita Federal e dívida ativa da União, além de certificado de regularidade no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e no Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal (Cadin).

Caso seja verificada a prática de irregularidades por parte de entidade certificada, o projeto estabelece que podem entrar com representação junto ao ministério correspondente: o usuário dos serviços prestados pela entidade; gestores municipais ou estaduais do Sistema Único de Saúde (SUS) ou do Sistema Único de Assistência Social (Suas); e a Secretaria da Receita Federal do Brasil e o Tribunal de Contas da União (TCU), sem prejuízo das atribuições do Ministério Público.

Para acessar ao projeto de lei clique no link abaixo

http://www.senado.gov.br/sf/atividade/materia/getHTML.asp?t=14484

Publicado pela Agência Senado (www.senado.gov.br)

MP regula concessão de Cebas. Responsabilidade é dos ministérios

O governo federal publicou no Diário Oficial da União de hoje, 10 de novembro, a Medida Provisória n.º 446, de 07/11/2008, que põe fim na discussão em torno do projeto de lei n.º 3021/2008. A MP “dispõe sobre a certificação das entidades beneficentes de assistência social, regula procedimentos de isenção de contribuições para a seguridade social e dá outras providências”.

De acordo com o documento, a responsabilidade para concessão do Certificado de Entidades Beneficentes de Assistência Social (Cebas) não será mais do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS). Fica resolvida entre Ministério da Educação, para aquelas que atuam na área de educação; Ministério da Saúde, para as de saúde; e Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, para a assistência social.

Entidades que atuem em mais de uma das áreas e tenha receita anual de até R$2.400.000,00, deverá requerer a certificação e sua renovação junto ao ministério responsável pela área de atuação preponderante. Se a receita anual da entidade for superior a R$ 2.400.000,00, a certificação ou sua renovação deverá ser requerida em cada um dos Ministérios responsáveis pela respectiva área de atuação, em até 12 meses contados da data de publicação da Medida Provisória.

O SESCON-SP e a OAB/SP promovem o lançamento do Fórum Permanente em Defesa do Terceiro Setor, nesta quinta-feira, dia 13, e terá como pauta a medida do governo. O evento, que ocorre na Av. Tiradentes, 960, São Paulo, às 08h30, reunirá as principais lideranças do setor para debater sobre.

Para inscrição e informações, acesse: http://www.sescon.org.br/template.php?pagina=eventos/MVC/index.php&do=EventoSiteShow&idEvento=416.

Publicado em ww.gife.org.br

Especial: Financiamento internacional – Quem define a agenda?

*Barry Knight and Caroline Hartnell.

Quem define a agenda: o fundador ou o beneficiado? Esta pergunta é tão velha quanto o financiamento. No entanto, recentemente mudou-se a forma de discuti-la. O ímpeto, dado nas últimas rodas de discussões, se deve ao surgimento do filantrocapitalismo ou “nova” filantropia, um debate que tem sido energizado pela publicação do livro de Michael Edwards: “Simplesmente Um Imperador a Mais”.

“Quem define a agenda?” é uma pergunta retórica. Como disse Firoze Manji editor da revista “Pambazuka News”: “Somente os financiadores têm dúvidas sobre a resposta a esta pergunta”. Júlia Unwin, no “The Grantmaking Tango”, [1] mostra que as decisões dos financiadores têm papel fundamental na formação da sociedade civil.

Ela receia que os financiadores públicos possam influenciar a independência da sociedade civil e introduz um caloroso debate na Grã-Bretanha perguntando-se se empresas sem fins lucrativos deveriam trabalhar com contratos de serviços públicos. Quando o empurrão vinga, restam poucas dúvidas de que os financiadores estão na direção certa. Como depois de tudo eles pagam pelo que fazem, a decisão deles é a que conta.

Ainda não se sabe se a verdadeira questão é a tendência atual de financiamento (que não é somente uma reserva da “nova” filantropia), desviando-se cada vez mais da tomada de decisão em direção aos financiadores do Norte e mais longe dos países em desenvolvimento. Será que se as fundações já estabelecidas também estão adotando a retórica e as práticas na nova filantropia? Michael Edwards cita a Gates “supostas preocupações de virar uma Fundação Ford”, mas parece que o enfoque deles tem-se aproximado.

Em direção a uma filantropia mais estratégica

Está claro que a tendência em direção a uma filantropia mais estratégica tem estado em ascensão já por algum tempo. Esta tem sido orientada em parte pelo pensamento das fundações a respeito do impacto do seu trabalho, direcionando-se para um foco mais amplo, objetivos mais claros e programas que dependem de menor número de grandes doações.

Programas reativos às doações são cada vez em menor número apesar de notáveis exceções como a Fundação Esmee Fairbairn, uma das maiores fundações da GB, que mudou para doações reativas mais abertas a partir de Janeiro de 2008. Algumas fundações têm chegado a ser mais como “fundações operacionais” seguindo o modelo alemão onde não há doações: somente contratos.

Filantrocapitalismo é uma forma extrema de estratégia filantrópica. Esta “nova” filantropia, como descrita por Michael Edwards, tem três características principais. Primeiro, implica no gasto de largas quantidades de dinheiro derivados na sua maioria de lucros obtidos no setor financeiro e de TI nas últimas duas décadas. Segundo, se baseia na crença de que os métodos empresariais podem resolver problemas sociais uma vez que são reconhecidos por serem superiores aos outros métodos utilizados no setor público ou na sociedade civil. Terceiro, alega que estes métodos podem alcançar não só transformações sociais como também aumento à acessibilidade aos benefícios sociais e aos serviços. Edwards desafia estes dois últimos em “Simplesmente um Imperador a Mais”.

Filantrocapitalismo e Controle do Doador

Enquanto os críticos do filantrocapitalismo têm a tendência de centralizar suas queixas na inadequação para fomentar mudanças sociais de longo prazo ou justiça social, uma das conseqüências despercebidas do filantrocapitalismo é o receptor do dinheiro passar a ser um mero agente do doador e sua perspectiva no mundo pouco acrescenta: um perigo reforçado no artigo da página 36, com o relevante título: “Subempreitada ou Visionários?”.

No entanto, o tema de quem controla o que é vital na sociedade é importante porque as pessoas que estão oprimidas ou marginalizadas desejam estar no controle do seu próprio destino ao invés de serem tratadas como objetos de caridade ou peão de um grande jogo de xadrez da solução dos problemas mundiais.

Qual é a compatibilidade do controle local com o foco orientado a objetivos da filantropia “estratégica” que está virando progressivamente a norma? Não muito, de acordo com Tade Aina, Representante da Fundação Ford do Leste da África, como manifestou na reunião de Maio em Nairobi, onde ela descreveu algumas das características do que ela chama de “nova arquitetura da assistência”.

As doações tendem a chegar somente para as maiores, mais formais, melhor estruturadas instituições possuidoras de estruturas aceitáveis para o consórcio doador, embora os fundos estejam relacionados a programas ou projetos. “Eles não dão apoio a investimentos em fundações ou em propriedades de instituições locais”. Isto também significa “menos apoio flexível para assuntos definidos e adotados de forma autônoma pelas instituições locais” e eles “terão que se encaixar no planejamento nacional de desenvolvimento ou na estreita visão dos grandes doadores privados”.

Ele fala sobre o “consenso emergente de procedimentos e metodologias que predomina nas empresas e negócios liderados pelos filantrocapitalistas, onde também se agregam antigas filantropias como a Fundação Rockefeller e sua insistência em manter uma visão estreita, de alto impacto, com resultados claros e mensuráveis”.

A Depilação e a Palidez do Controle do Doador

De Bretton Woods ao desenvolvimento comunitário

Estes temas estão longe de serem novidade. Com o filantrocapitalismo existe um sentimento de que estamos voltando 60 anos para criar o atestado de Evan Durbin de 1949 que disse: “agora todos somos planejadores”. Esse enfoque ganhou expressão na conferência de Bretton Woods de 1944, que planejou o mundo do pós-guerra demonstrando uma imensa confiança de que o mundo poderia ser regido pela combinação de boa vontade, cooperação internacional e novas instituições financeiras.

Este etos de planejamento, derivado originalmente do socialismo de Fabian, de Beatrice e Sidney Webb, espalhou-se rapidamente pelo mundo não somente na Europa como também em grande parte da África e da nova Índia independente.

Nos idos de 1955, esse enfoque de cima para baixo foi questionado pelo Movimento da Comunidade de Desenvolvimento do Terceiro Mundo. Era inspirado pela “teoria populista” cuja virtude baseia-se no fato de que as pessoas simples, maioria absoluta nas tradições coletivas, são as que melhor sabem o que desejam e precisam. Essa perspectiva levou a uma série de diversos enfoques, onde o denominador comum entendia que as pessoas comuns eram tratadas indevidamente.

Apesar de que da teoria populista dever muito às perspectivas de auto-organização derivadas das idéias anarquistas do século XIX (com as idéias de Peter Kropotkin e com as dos ativistas políticos como Mahatma Gandhi), muitos dos proponentes do enfoque participatório eram missionários e colonizadores.

Na verdade, o Escritório Colonial Britânico do Comitê de Aconselhamento em 1944, elaborou um relatório de Educação Massiva Nativa nas Colônias, onde promovia o controle local como meio de oferecer serviços na agricultura, saúde e serviços sociais. Em 1950, a idéia de desenvolvimento comunitário foi destaque nos textos das Nações Unidas e, ao final da década, desenvolveu-se uma teoria bem articulada. (2)

O desenvolvimento Comunitário alcança sua apoteose durante a Guerra e também à custa da pobreza na América de 1960. O motivo principal no enfoque definido no Ato da Oportunidade Econômica era a “participação máxima possível”. A teoria consistia em que a participação dos mais pobres criaria oportunidades que reduziriam a pobreza que, por conseguinte, levaria à Grande Sociedade. No entanto, como veremos adiante, tudo terminou muito mal.

Do crescimento até a revolução associativa

Nos anos de 1970, declinou a participação como estratégia interventora. Em alguns países as expectativas eram grandes demais, originando muita decepção até nos ativamente envolvidos. Em outros países, corrupção, má administração, e ineficiência significaram que os recursos designados para fomentar a participação das pessoas comuns nunca chegaram a elas.

Como conseqüência, a participação foi substituída pela ênfase em crescimento, transferência de capital, modernização da indústria pesada e da economia. Na África, muitos governos continuaram utilizando a retórica da participação, mas fracassaram em fornecer recursos para que isto se tornasse realidade. Em 1978, na Índia, o governo abandonou seu programa de desenvolvimento comunitário.

Dez anos depois, pudemos observar a abertura da América do Sul, África do Sul e Europa Central e do Leste e, mais uma vez, o foco mudou totalmente. A “sociedade civil” teve uma vitória clara nas revoluções de 1989 e no desmonte do apartheid na África do Sul. O poder popular era visto como parte chave nas mudanças e a idéia fora lapidada formalmente pela “Revolução Associativa” de Lester Salamon.

Ele disse que o crescimento das empresas sem fins lucrativos no final do século XX poderia ser comparável e politicamente significante com o crescimento do estado-nação do final do século XIX. As fundações, empresas sem fins lucrativos, universidades e departamentos governamentais, mudaram abruptamente a linguagem nos seus programas de empresas sem fins lucrativos para prosseguir com esta nova ideologia secular de dar apoio às pessoas em suas próprias instituições.

O surgimento da “nova” filantropia

Na virada do milênio, este novo otimismo começou a desaparecer. Não estava claro o que a sociedade civil oferecia e, um número significativo de financiadores, deu marcha a ré. Uma delas foi a Atlantic Philanthropies, que depois de ter decidido gastar sua doação num período de 12 a 15 anos, resolveu centralizar suas doações em apenas quatro bem definidos e “estratégicos” programas onde poderia sentir que haveria impacto máximo e conseguiria uma “herança” visível.

Uma série de livros e artigos chamou a atenção para a lerdeza da sociedade civil e a dificuldade em aparelhá-la para desenvolver uma estratégia de doações com o intuito de obter resultados mensuráveis.

Em 2001, a fundação Bertelsman deu início à Rede de Filantropia Estratégica. Apesar do programa não ter tido durabilidade, a idéia de que os doadores deveriam ser estratégicos e não reativos, ganhou adeptos. O surgimento da “nova” filantropia com suas características concomitantes de planejamento de cima para baixo, fecharam o círculo iniciado com Durbin.

Moda em Filantropia

Então, aí está o papel da moda na filantropia. Como disse Ian Smillie, fazendo eco à letra de Joni Mitchell em “The Circle Game”, “Os pôneis pintados… giram e giram”. [3]. No âmbito da filantropia, o papel dos shows de moda aparece claramente no seu idioma. Novos termos são constantemente inventados.

Dificilmente naqueles dias alguém dominaria o enfoque “de cima para baixo” que parece ser evidentemente indesejável porque hoje em dia, predomina o de “baixo para cima” que soa melhor. Substitua “para cima” por “reativo” e “para baixo” por “pró-ativo” que a forma das coisas muda. “Reativo” soa ineficiente e antiempreendedor; enquanto “pró-ativo”, soa mais positivo.

Da mesma forma pensem em “nova” filantropia com sua persuasiva conotação de eficácia empreendedora, orientada para impactar, orientada para resultados e enfoques estratégicos. Quem gostaria de associar-se à filantropia “velha” ou “tradicional”? Parece que cada vez menos pessoas: nem a filantropia “velha” nem a “tradicional”. “Nova” é uma maneira esperta de colocar uma nova embalagem no velho e interminável debate.

A moda se repete porque, assim como o comprimento das bainhas ou o tamanho dos saltos, só existem limitadas variações: se os saltos são muito altos, você cai. Ao longo de 60 anos nós temos estado num ciclo que balança da exortação do Chairman Mao, “Que centenas de flores floresçam” à forma mais corporativista do dirigisme Francês. Uma geração anterior falava de “planejamento” versus “laissez-faire”.

É a linguagem nova desenhada meramente para maquiar o fato de que velhos e intratáveis problemas ainda não foram resolvidos? Ou é o caso de velhas e conhecidas atitudes que emergem com uma nova roupagem? Um fato positivo disto é que adotando novos termos dar-se-á vida e energia renovadas ao debate que ainda está por vir. O quadro da velha filantropia/nova filantropia pode ser compreendido sob este prisma.

Nada de bala mágica

Qualquer um que esteja tentado a pensar que existe só uma resposta correta para o balanço do poder entre o doador e o beneficiado, deveria ler o clássico dilema de Marris e Reins, “Dilemmas of Social Reform”. (4) Se houve um momento na história em que os doadores realmente tentaram acertar isto, foi durante a “Guerra à Pobreza” na América dos anos 60.

Aqui, os recursos de cima para baixo, combinados com análise racional e avaliação científica, levaram a desenvolver programas de cima para baixo, porém o planejamento permitiu às pessoas do lugar opinar sobre como os programas deveriam ser implementados no local. Por exemplo, tanto o Programa de Ação Comunitária como o Programa Cidade Modelo tinham como objetivo dar autonomia aos mais pobres da sociedade americana e permitir transformações de baixo para cima.

No entanto, tudo deu errado. Muitas comunidades afro-americanas não gostaram do programa porque sentiam que o slogan “participação máxima possível” era simbólico e condescendente, permitindo aos doadores fugirem de temas reais como a desvantagem estrutural e discriminação. A Prefeitura não gostava dos programas porque sentia que estes permitiam que as organizações comunitárias usurpassem seus poderes de direito.

Os trabalhadores profissionais não gostavam deles porque achavam que o programa “Nova Carreira Para o Pobre” ameaçava seus empregos. Sem o acordo básico definido claramente sobre que programa é para quem e quem se beneficiará com ele, certamente se desmancharia da mesma forma como aconteceu com a Guerra Contra a Pobreza dos EUA.

Qualquer um tentado a realizar mudanças, seja de cima para baixo ou de baixo para cima, tem que lidar com as realidades da vida no chão. Por isso que nenhuma fórmula ou bala mágica funcionará. Ambos, o doador e o beneficiado têm que confrontar os direitos adquiridos, as formas de trabalho estabelecidas, os processos institucionais, as influências da agência, as atitudes arraigadas e as normas para determinar o passado e o futuro da ajuda oficial para o desenvolvimento.

A combinação de enfoques

A dependência somente numa forma de intervenção – seja esta um modelo derivado de empresas ou um modelo derivado de teorias de desenvolvimento comunitário – é insuficiente para quase a totalidade das circunstâncias sociais onde os doadores desejam fazer a diferença. É preciso combinar os enfoques e o ponto central é que qualquer intervenção precisa ser política e socialmente sensível às condições locais. É axiomático que essas condições locais avaliem que nunca haverá somente uma fórmula mágica. No entanto, isto não significa que nós não podemos aprender sobre o que funciona e o que não funciona.

Nesta edição da Alliance, nós estipulamos alguns enfoques promissores pelos quais as organizações do Sul começam a encontrar formas de montar sua própria agenda e negociar em termos iguais com os doadores do Norte.

Sheila Richards, Oscar Rojas e Santosh Samal (clique aqui) descrevem como as fundações do Sul, trabalhando em sociedades divididas, podem agir como uma ponte útil ente o Norte e o Sul. Estes “doadores ativistas” fazem parte das comunidades marginalizadas que os doadores do Norte podem estar tentando alcançar já que ao investir neles se muda a carga da tomada de decisão do Norte para o Sul.

A TrustÁfrica, de acordo com Bhekinkosi Moyo (clique aqui), já começou a equacionar o campo entre Norte e Sul ao intervir na definição das agendas de reunião que dão à TrustÁfrica a legitimidade de juntar-se com os doadores do Norte em termos igualitários e o Fundo do Desenvolvimento de Mulheres Africanas está fazendo uma aproximação semelhante, montando uma agenda filantrópica feminista através dos seus beneficiários.

*Barry Knight é Secretário da CENTRIS.
E-mail: barryknight@cranehouse.eu

**Caroline Hartnell é Editora da Alliance.
E-mail: caroline@alliancemagazine.org
Notas:
[1]. Julia Unwin (2005) O Tango das Doações. The Barning Foundation, Londres. www.barigfoundation.org.uk/GrantmakingTango.pdf.

[2] P. Kuenstler (1960) “New Community Organization”. Farber and Farber, Londres.

[3] I Smillie (1995) “The Alms Bazaar: Altruism Under Fire – Non-Profit organizations and international development”. Intermidiate Technology Publications, Londres.

[4]. P Marris and M Rein (1972) “Dilemmas of Social Reform”. Penguin Books, 2ª. Edição.

Publicado em http://www.gife.org.br/alliancebrasil

O filantrocapitalismo torna-se global

Matthew Bishop*

Quando em 2006, cunhei o termo “filantrocapitalismo” num extenso artigo para o The Economist, eu não tinha idéia que poderia desencadear tanto debate. É caricaturado freqüentemente como sendo apenas um interesse em desempenho e mensuração, mas eu acredito que seja muito mais do que isso. Acredito que marca uma nova partida radical na filantropia e em capitalismo com conseqüências sociais e políticas de longo alcance. [1]

Filantrocapitalismo envolve algumas das pessoas mais talentosas e de sucesso entre as quais está Bill Gates, colocando suas mentes nos problemas como a educação, doenças, mudanças climáticas e terrorismo. O que eles têm em comum é que eles são homens e mulheres vencedores por esforço próprio e que fizeram fortunas espetaculares reconhecendo tendências, desafiando ortodoxias e abraçando as oportunidades de globalização e de mudanças tecnológicas. Além de terem enormes fortunas para doar, eles têm os relacionamentos, as influências e o entendimento de como funciona o mundo.

Eles estão longe de qualquer cristão na forma de como doar. Alguns, geralmente do setor financeiro, aplicaram seu talento para investir em doações. Warren Buffett, como investidor, tende a selecionar um punhado de empresas das quais é acionista há décadas e tem repetido esta mesma fórmula para doar boa parte do seu dinheiro para o homem que ele enxerga como o “melhor do negócio”, Bill Gates.

O chefão Britânico dos fundos Hedge, Christopher Cooper-Hohn, um investidor financeiro, está adotando um enfoque baseado em medições para doar por meio dos Fundos da Fundação de Investimentos para Crianças que ele criou com sua esposa Jamie. Outros preferem o enfoque da grande visão, como é o caso de Ted Turner que, com sua promessa de $1 bilhão para sustentar as Nações Unidas em 1997, marcou o início da era do filantrocapitalismo.

Em contraste a Gates, que está liderando grandes iniciativas para resolver grandes problemas globais, outros filantrocapitalistas estão promovendo mudanças de baixo para cima. Jeff Skoll, da eBay, está apoiando iniciativas sociais e ajudando a dar uma novo alento de vida ao setor do “sem fins lucrativos”. A estrela do rock, Bono, vê seu papel em mobilizar a opinião pública utilizando o poder da “celantropia” para defender grandes aumentos de ajuda para os países em desenvolvimento, trabalhando por meio da sua organização DATA (Dívida, AIDS, Comércio, África) a força atrás da campanha “One”.

Como o capitalismo, o filantrocapitalismo é um fenômeno global, com uma nova geração de filantropos ambiciosos emergindo do mundo em desenvolvimento. Pessoas como o bilionário mexicano das telecomunicações, Carlos Slim, que prometeu doar $10 bilhões para lutar contra a pobreza na América Latina ou o magnata indiano de softwares, Azim Premji, que está levando educação para crianças pobres, trazem novas percepções e competências para o desafio do desenvolvimento. Talvez, o melhor exemplo de todos seja o do chefão sudanês de telefonia móbil do Sudão, Mo Ibrahim. Sua experiência nos negócios o convenceu que a pobreza da África será derrotada somente pelas mudanças políticas; ele usa seu prêmio anual de melhor político africano outorgando-o a quem dê abertura para debater as lideranças políticas.

A força do capitalismo está em criar um ambiente onde a inovação é premiada e o filantropismo promete levar esse dinamismo para o mundo das doações. É desafiante para os titulares, é tumultuante e erros serão cometidos; no entanto a sua “destruição criativa” poderá trazer não somente um “boom” nas doações como também um surto com seu impacto.

Alguns críticos estão preocupados que o filantrocapitalismo poderá, de alguma forma, minar a democracia e a sociedade civil e corroer a responsabilidade governamental. O medo ao poder político dos ricos não é novidade, mas moldar o rico como inevitavelmente auto-indulgente e antidemocrático está errado. Desde a primeira idade de ouro da filantropia moderna na Europa Renascentista, o rico freqüentemente tem mostrado ser mais responsivo às necessidades dos pobres do que o estado. Duzentos anos atrás, William Wilberforce liderou a campanha contra o comércio escravocrata. Hoje, filantropos como George Soros, estão patrocinando as mudanças democráticas por todo o mundo.

Certamente, há necessidade de ser transparente e os ricos precisam ser responsabilizados pelos resultados de suas filantropias e não só celebrar o tamanho delas. Estes são os princípios que deveriam alinhavar o novo contrato social entre os ricos e o resto.

O Filantrocapitalismo terá sucesso em alcançar seu considerável potencial somente se seus expoentes levarem a sério os desafios de comportarem-se como empresários para lidar com os grandes temas de hoje. Eles precisam ser inovadores, ponderados, analíticos, induzidos, cooperativos e, como não existem parâmetros simples de sucesso em filantropia, brutalmente honestos e autocríticos sobre como estão indo. Felicito-os para que tenham sucesso.

Matthew Bishop é Redator Chefe de Negócios e American Bussines Editor do The Economist. E-mail mattewbishop@economist.com

1 Este artigo baseia-se numa abertura de um encontro para discutir Filantrocapitalismo patrocinada pelo Fórum Global de Filantropia. Os pontos de vista e idéias expressos nele foram discutidos extensivamente em: “Filantrocapitalismo: Como o Rico Pode Salvar o Mundo”, de Matthew Bishop e Michael Green, a ser publicado em desembro.

Publicado em http://www.gife.org.br/alliancebrasil/noticias.php?codigo=119