Por uma cultura de doação permanente da pessoa física

Joana Lee*

Vivemos um momento histórico no país em que a classe média está ultrapassando 50% da população. No entanto, segundo pesquisa promovida pela Child Fund Brasil em 2010, apenas 9% da população era doadora (1) . E, no ano seguinte, um estudo comparativo sobre doações de indivíduos elaborado pela Charities Aid Foundation indicou que o Brasil era o 85o dentre os 153 países analisados.(2)

O que observamos é um processo de enriquecimento da população, mas com baixo envolvimento com o financiamento do terceiro setor, sobretudo se assumirmos que, historicamente, boa parte destes 17 milhões de doadores contribui para a entidade religiosa local. Assim, existe hoje um enorme potencial para se que se forme, no Brasil, uma grande massa de investidores sociais.

O pesquisador Marcelo Estraviz faz uma reflexão simples e interessante sobre a cultura do doador brasileiro, contando que, ao pesquisar a palavra “doação” no Google Imagens, as primeiras imagens que aparecem são de ajuda, mas não de dinheiro(3). Já a mesma pesquisa com a versão em inglês, “donation”, mostra cofres em formato de porquinho, mãos estendidas, notas de dinheiro.

Isto posto, o que precisamos fazer, então, para termos uma população 75% doadora de dinheiro? Muito tenho ouvido sobre a necessidade de o país de ter incentivos fiscais para doadores individuais, da mesma forma que existem leis de incentivo e renúncia fiscal que beneficiam as empresas. Nada contra. Será muito bem-vindo. Pergunto-me, no entanto, se não há uma necessidade de um movimento mais ativo de mudança da cultura do cidadão brasileiro.

Existem organizações sem fins lucrativos olhando para a forma como as empresas fazem a gestão de seus negócios, a exemplo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, e como elas praticam seus investimentos sociais, como o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). Outros estão olhando para o indivíduo e as famílias investidoras, como o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e o Instituto Azzi. Mas quem está olhando para os mais de 90 milhões de brasileiros de classe média?

Estou convicta de que eles merecem um olhar mais demorado e justifico. Entre 1995 e 2002 o setor sem fins lucrativos cresceu 71%. São cerca de 300 mil organizações, representando 5% do Produto Interno Bruto, uma “indústria” maior do que a de 22 estados brasileiros(4) . Uma indústria que está em crise de imagem, que não mais conta com a ajuda de financiamento externo, fruto da crise europeia e do próprio enriquecimento nacional. Que busca se profissionalizar e que é criticada por investir dinheiro em atividades meio. Por fim, uma indústria que emprega milhões de reais investidos pelo poder público, em sua grande forma feita por convênios, instrumentos cuja origem legal é a relação entre entes públicos e que, portanto, é extremamente engessada.

Agora, imaginemos uma nova cultura em que 140 milhões de brasileiros, somando as classes A, B e C, doassem R$ 20,00 por mês para financiar o terceiro setor. Seriam R$ 2,8 bilhões em dinheiro livre e criativo. Amém.

(1) Pesquisa realizada em parceria com a RGarber analisando dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2003-2009 e dados preliminares do Censo 2010 do IBGE.
(2)
(3) “Fundos Patrimoniais: Criação e Gestão no Brasil”, Marcos Kissil, etc., Zeppelini Editorial, 2012, pg. 68.
(4) “Tendências do Investimento Social Privado na América Latina”, Helena Monteiro, Marcos Kisil e Márcia K. Woods, Imprensa Oficial, 2012.

 

* Joana Lee Ribeiro Mortari é responsável pelo Desenvolvimento Institucional da Associação Acorde, organização social que trabalha pelo desenvolvimento humano de crianças e jovens em Embu das Artes (SP), por meio de oficinas de arte e esporte.

Fonte: GIFE

Por que doamos?

Por Fernando Nogueira

Por que pessoas doam e, de forma mais geral, desenvolvem comportamentos altruístas?

Essas foram algumas das principais questões debatidas em uma conferência na New School, em Nova York. Com o nome de “Giving: Caring for the Need of Strangers” (Doar: Importar-se com as Necessidades de Desconhecidos, em tradução livre), o encontro reuniu pesquisadores e especialistas dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa para discutir resultados de pesquisas recentes em doações, captação de recursos e filantropia, em dezembro do ano passado.

Em termos científicos, altruísmo pode ser definido como o cuidado que damos a outros a um custo para nós mesmos. Biologicamente, esse comportamento é ilustrado pelo esforço que o corpo da mãe tem que fazer para gerar alimentação a seus filhos, tanto no útero quanto em seguida na produção do leite. As duas principais explicações aceitas por psicólogos e biólogos sobre a origem do comportamento altruísta são por proximidade de parentesco (“kinship”, em inglês) e reciprocidade.

O primeiro caso ocorre quando ajudamos filhos, irmãos, primos ou parentes em geral, seja por laços biológicos (para preservar genes semelhantes aos nossos) ou sociais (pela força da família enquanto unidade cultural e social). A reciprocidade se refere à expectativa de contatos constantes entre pessoas de diferentes famílias, e neste caso doações ou comportamento tidos como altruístas ajudam a criar laços de confiança que favorecem novas trocas e relações entre os grupos. É interessante notar que o comportamento altruísta também aparece em várias espécies, mas o grau de generosidade humano é significativamente maior e representa uma das marcas que nos diferencia de outros animais.

Mas essas duas abordagens (“kinship” e reciprocidade) ainda não explicam por que pessoas doam para desconhecidos. Nesse sentido, outra forma de pensar sobre nossos comportamentos altruístas se dá no dualismo “nature vs nurture” (natureza versus cultura). Doamos por que somos geneticamente programados para termos esse comportamento, por alguma razão evolutiva ou por que socialmente nossa cultura valoriza e incentiva esse tipo de atitude?

Pesquisas relacionadas ao primeiro caminho, o evolutivo, apresentam evidências de que nos sentimos bem ao sermos generosos. A doação ativaria centros de recompensa ou mesmo prazer em nossos cérebros, o que nos motiva a doar novamente. Além disso, aparentemente nascemos com a capacidade de sentir compaixão e empatia -nos importarmos com o sofrimento alheio. Doar a estranhos pode ser uma das manifestações dessa capacidade.

Já a linha com ênfase na cultura humana apresenta explicações como tradição (doamos porque nossos pais já doavam), pressão social ou do grupo (se várias pessoas de nosso círculo social ou comunidade doam, também nos sentimos pressionados ou motivados a doar), por questões de status (valorizamos os que doam e se preocupam com desconhecidos), de identidade (demonstramos nossos valores e ideais por meio de nossas ações) ou mesmo uma extensão dos argumentos de reciprocidade e criação de laços sociais, como mencionado acima.

O professor Felix Warneken, um dos debatedores do evento, desenvolveu uma hipótese que combina os dois caminhos. Estudando a capacidade de bebês e crianças de ajudar estranhos sem serem solicitados, ele conclui que a socialização humana -a forma como somos criados, como educamos nossos filhos- se dá em cima de uma predisposição biológica. Ou seja: nascemos com o potencial da generosidade, mas nossas práticas altruístas se desenvolvem em maior ou menor grau com base em nossa cultura.

O recado que vem dos debates é claro: o papel de empreendedores sociais, ativistas, líderes e profissionais de ONGs é ajudar a exercitar esse potencial e desenvolver uma cultura mais forte de doação e voluntariado para todos.

Festival Latino-Americano de Captação de Recursos está com inscrições abertas )

FERNANDO NOGUEIRA, professor da FGV-EAESP e da ESPM, doutorando em Administração Pública e Governo na FGV-EAESP, é pesquisador visitante na New School e colaborador-voluntário da ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos)

Diversificando os recursos

Boa comunicação e diferentes fontes de renda levam ao caminho da sustentabilidade

Por: Danilo Brandani Tiisel e Michel Freller

Captação ou mobilização de recursos é o termo utilizado para descrever diferentes ações coordenadas para geração de valores necessários à viabilização da missão de empreendimentos sem fins lucrativos. Ou seja, captar recursos é uma das atividades de apoio fundamentais para toda atuação organizada do Terceiro Setor. Normalmente complexa, essa atividade merece ser planejada; assim, recomenda-se a elaboração de um plano para uma instituição buscar recursos da sociedade.

Abaixo, seguem os objetivos de um “Plano de Mobilização de Recursos e Sustentabilidade”:

  • Organizar, de forma clara e objetiva, os atrativos da organização para solicitação e obtenção de recursos da sociedade;
  • Recomendar práticas de comunicação de suporte para a mobilização de fundos, conferindo legitimidade à organização perante os diversos públicos influenciados – stakeholders;
  • Apontar desafios a serem enfrentados;
  • Apresentar estratégias eficientes para a manutenção financeira da organização, bem como para sua sustentabilidade;
  • Definir prioridades e sugerir o ordenamento das ações para implementação de um plano;
  • Potencializar a atração das fontes de recursos, levando em conta a necessidade de diversificação das mesmas.

Por outro lado, a tão mencionada sustentabilidade de uma organização não compreende apenas a área financeira. Para uma entidade ser sustentável, é preciso observar se os serviços prestados por ela estão em conformidade e na qualidade de que a sociedade necessita, e se tem recursos humanos treinados para tanto. É claro que para fazer tudo o que ela deseja, são necessários recursos materiais e financeiros, além de um plano escrito sobre aquilo que pretende realizar e de onde virão os recursos. Sendo assim, sustentabilidade é um conceito sistêmico e relacionado à continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais para a atividade de uma iniciativa organizada, ou mesmo de toda atividade humana.

Para atingir a sustentabilidade, a organização deve destinar cuidado sistemático e contínuo a vários níveis de atividades, tais como:

  • Necessidade social da existência de suas ações da forma como são realizadas;
  • Profissionalismo e eficiência das atividades de gestão;
  • Qualidade dos serviços;
  • Transparência e legitimidade social;
  • Equilíbrio e continuidade do trabalho diário;
  • Estabelecimento e manutenção de parcerias;
  • Viabilidade econômica (economia de gastos e eficiência, mobilização de recursos e geração de renda própria);
  • Aspectos relacionados ao meio ambiente (reciclagem de pilhas e outros materiais, economia de materiais e energia, utilização de equipamentos, materiais de escritório e higiene “amigos do meio ambiente”, entre outros).

Recomenda-se, também, a diversificação das fontes de recursos para diminuir os riscos. Para ser mais legítimo, ou seja, economicamente viável, a organização deve acessar diferentes fontes de recurso de forma planejada e diversificada. A recomendação inicial, e principal, é obter recursos de fontes diferentes. Na realidade, sempre que a instituição depender de uma fonte que represente mais de 33% de toda a arrecadação, torna-se necessário rever as estratégias de captação de recursos.

Além disso, a diversificação das fontes de recursos proporcionará maior reconhecimento da organização perante públicos diferentes, tais como empresas, pessoas físicas, governo, fundações, agências internacionais, organizações de fomento, entre outros. Quanto mais diversificados forem os públicos que apoiam o trabalho da organização, mais legítima será sua atuação e ainda mais necessária sua existência.

Principais fontes de financiamento que podem ser acionadas:
Iniciativa privada

  • Empresas;
  • Institutos empresariais;
  • Pessoas físicas.

Organizações religiosas

  • Fundações empresariais;
  • Fundações comunitárias;
  • Fundações familiares;
  • Pela causa.

Fontes Institucionais

  • Governos (nacional e internacional, regional ou local);
  • Agências internacionais de financiamento;
  • Instituições que representam um grupo de países, assim como o Banco Mundial, as agências das Nações Unidas e a União Européia ;
  • ONGs nacionais e internacionais.

Regra geral é que não se deve esperar recursos de um número muito reduzido de fontes de recursos. Ainda que a organização tenha maior afinidade ou identidade com um tipo de fonte, é altamente recomendável que se desenvolvam campanhas e solicitações aos diversos tipos mencionados acima. Principalmente porque envolve a sustentação financeira da organização, mas outro fator primordial é que, para expandir as possibilidades de arrecadação, a organização deve desenvolver contato com diferentes públicos, ampliando seu reconhecimento em vários setores da sociedade, contribuindo para sua legitimidade social. É importante observar, também, que algumas fontes fornecem recursos rapidamente, enquanto outras podem levar mais tempo para obter resultados.

A rigor, a escolha de estratégias adequadas à organização não deve recair sobre uma ou duas opções. Por outro lado, também não deve tender, inicialmente, a um número grande de alternativas realizadas ao mesmo tempo, pois cada uma delas exigirá investimento próprio (algumas vezes oneroso) de tempo e de outros recursos para ser implementada. Deve-se estabelecer prioridades, além de um cronograma de implementação das estratégias (plano de ação).

São dois os aspectos mais importantes na escolha das estratégias: buscar, entre as alternativas escolhidas, o equilíbrio entre o custo e o benefício para implementá-las; e estabelecer metas factíveis.

É recomendável criar um banco de dados específico para as atividades de mobilização de recursos. O objetivo é auxiliar na identificação e contato com potenciais financiadores, assim como no acompanhamento das interações realizadas. Além disso, o banco de dados irá subsidiar a avaliação dos resultados alcançados ou das tendências observadas, a correção de estratégias etc.

Por toda essa complexidade, também é importante que a organização mantenha uma área que chamamos de Desenvolvimento Institucional. Essa área será responsável pela implementação do plano de mobilização de recursos e pela comunicação com as diversas fontes de recursos para as atividades de captação. É importante destacar que esse tipo de comunicação não deve estar pautado apenas na solicitação de recursos, mas também na prestação de contas e fidelização desse público de especial interesse.

Danilo Brandani Tiisel – Graduado em Direito pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, com especialização em Legislação do Terceiro Setor, Gestão para o Terceiro Setor e Direito Ambiental. É membro do Grupo Estratégico da Comissão de Direito do Terceiro Setor da OAB-SP. É diretor da consultoria Criando Atividades Alternativas.

Michel Freller – Administrador pela Fundação Getúlio Vargas, palestrante, facilitador, consultor, professor, vice-presidente da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e diretor da consultoria Criando Atividades Alternativas.

Publicado em Revista Filantropia On-line n.º 193.

Como o imposto e a participação das empresas e dos cidadãos podem beneficiar crianças e adolescentes

Se a empresa que você dirige, ou na qual atua, é tributada pelo Lucro Real, ou se você é contribuinte do Imposto de Renda e, como pessoa física, faz sua declaração pelo Modelo de Declaração Completo, encontrará neste manual informações que o ajudarão a: 
– Compreender e usar o mecanismo que permite ao contribuinte (Pessoa Física ou Pessoa Jurídica) doar recursos para ações que beneficiam crianças e adolescentes brasileiros e deduzir as doações do Imposto de Renda. 
– Fazer dessas doações uma experiência significativa de participação cidadã – empresarial ou individual. 
 
Profissionais que, nas empresas, atuam nas áreas de comunicação, relações com a comunidade, responsabilidade social ou investimento social, encontrarão aqui orientações para dialogar com as áreas de finanças, controladoria ou contabilidade, bem como com fornecedores, parceiros e clientes que tenham interesse no tema. Caso o assunto ainda seja novo para a empresa, o manual poderá ajudar esses profissionais a divulgar para a direção e o público interno da empresa a possibilidade, a importância e a forma de fazer as doações. 
 
Espera-se que o manual também possa apoiar os representantes dos Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente em sua tarefa de divulgação dos Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente e de mobilização da sociedade para as prioridades deste campo. 

Manual Febraban sobre o FIA

http://www.febraban.org.br/fia/febraban_direitos_internet.pdf

Site da Febraban sobre FIA 

http://www.febraban.org.br/fia/

Publicado em http://prattein.com.br/prattein/texto.asp?id=166