ENTREVISTA MIRIAM ABRAMOVAY, ESPECIALISTA EM JUVENTUDE

Formada em Sociologia e Ciências da Educação pela Universidade de Paris, na França (Paris VIII – Vincennes), e mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Miriam Abramovay é autora e co-autora de vários livros e artigos sobre o tema juventude, como Políticas Públicas de/para/com Juventudes (Brasília, UNESCO, 2004) e Juventude, Juventudes: o que une e o que separa (Brasília, UNESCO, 2006).

Em entrevista ao Cenpec, Miriam traça um perfil da juventude, ou melhor, das juventudes de hoje, comenta as diferentes formas de participação social encontrada pelos jovens e a pouca visibilidade dada às essas ações. “Como esse ator social só há muito pouco tempo passa a ser um ator social com visibilidade, com políticas específicas, com discussões e possibilidades, isso também traz muito temor. Os adultos ainda vêem os jovens de maneira muito negativa”, acredita a socióloga, que atualmente coordena pesquisas sobre violência nas escolas na Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (Ritla).

É possível definir um perfil para juventude atual?

Todos os que trabalham, lêem sobre juventude falam em geral duas coisas: a primeira é que não existe uma só juventude. Isso já é senso comum. Se usa “juventudes”, no plural. Depende da raça, do gênero, do grupo a que pertence, da classe social etc.

Mas eu acho que as juventudes têm alguma coisa em comum como grupo. Além do ser jovem, a questão do dinamismo, da crença na vida, da esperança, a questão de alguns pontos de como vêem o mundo, apesar de não ser igual, é com mais otimismo que os adultos sempre. Isso faz parte, inclusive, do ser jovem. Outras coisas como querer se diferenciar, seja na roupa, seja na forma de falar ou de se vestir, de se arrumar, na forma de se relacionar com os adultos e com os próprios jovens.

Então, se de um lado, nós temos várias juventudes, também temos algumas características comuns nessas mesmas juventudes.

A senhora acredita que o jovem de hoje vem buscando novas formas de participação política nas ONGs, nas associações locais, em organizações de economia solidária?

Novamente, eu acho que existem muitos jovens. E o jovem de hoje não é o mesmo que o de 20, 30 anos atrás. Eles estão vivendo em uma sociedade amplamente globalizada, em uma era em que podem se conectar através da internet; é uma relação que não existia para o jovem de 30 anos atrás. O mundo mudou. O mundo mudando, evidentemente todos mudaram, mas os jovens também mudaram, principalmente porque eles têm um perfil em mudança. Eles não estão ainda definidos, estão em processo de mudança.

Então, eu acho que existem muitas formas de participação. Existe uma forma de participação mais tradicional. Apesar de muito se falar que os jovens não participam politicamente, é possível participar politicamente de muitas formas. Não é preciso pertencer a partidos políticos. Mesmo entre os adultos, a participação em partidos políticos é muito pequena. Existem infinitas formas de participação dessas juventudes. Inclusive, uma forma de participação só pela internet. Alguns grupos, os chamados grupos de participação mais positiva, que não acontece só em partidos políticos, mas em grupos de música, de dança, de teatro, de esportes, de internet, enfim, com trajetórias, experiências pessoais muito diferentes, experiências muito diferentes diante da tecnologia, do consumo, do capital social e cultural que eles têm, que também é muito diferente.

Eu considero como participação alguns grupos que as pessoas não consideram. Em Brasília, existem jovens organizados em gangues de pixadores. Eu acho que isso é uma forma de participação também, porque eles estão se colocando no espaço da cidade, tomando esse espaço para que seja deles também. Então, eles fazem pixações em locais indevidos, mas é uma forma de aparecer, de chamar a atenção, de se colocarem nesses espaços de pertencimento em uma cidade que não lhes dá espaço.

É uma forma de mobilização?

Não é uma forma de reivindicação política no sentido tradicional, mas é uma forma de reivindicação. Quando eles estão pixando a parede, eles estão dizendo “Nós não temos espaço nessa cidade. Estamos colocando o nosso nome, porque não estamos sentindo que essa cidade nos abre espaços e nos dê possibilidade de nos sentir cidadão como qualquer outro cidadão”. Têm outros que não, que têm outras necessidades, outras formas de participação. Eu acho que a gente tem que levar em conta essa questão do tempo em que nós estamos vivendo e como é a vida cotidiana desse jovem e como ele está se colocando no mundo.

Me parece que é uma mobilização de jovens mais voltada para problemas locais. É uma realidade diferente da do jovem da década de 70 que brigava pela instauração de um regime democrático.

É uma participação que pode se dar através do hip hop, da letra de música, dizendo o que você tem e o que você não tem, através de protestos contra violência…

Eu acho mesmo que, apesar de eles pertencerem a um mundo globalizado e terem acesso a essas informações, o real é a vida local, o cotidiano deles. Eles não podem brigar pelo que está acontecendo em Brasília; eles têm que brigar pelo aqui e agora deles. Acho que estão fazendo isso mesmo. Muitas vezes não aparece, não têm a mesma visibilidade de movimentos sociais tal como o impeachment, o de 68, mas é diferente. É outro mundo, é outra sociedade.

Tem um quadro muito interessante colocado por uma autora chilena chamada Dina Krauskopf em que ela vai dizendo as necessidades dos jovens de ontem e de hoje. Ela vai explicando isso, como o local, o pessoal, o que está mais próximo é importante para as nossas juventudes hoje, enquanto que para juventude de uma época como a da ditadura, era a questão social, do todo, dos movimentos políticos. Então, era outro mundo, outro momento histórico.

O grande problema é quando se faz essa comparação, porque aí se começa a culpabilizar o jovem não pelo que eles são, mas dizendo o que eles não são.

A Dina Krauskopf fala que o velho paradigma eram as identidades coletivas e o novo paradigma são as identidades étnico-existenciais; o velho paradigma era a mudança social, o novo paradigma, a mudança do eu; o velho paradigma era o global, o novo paradigma, o local; o velho paradigma eram metas e soluções futuras, o novo paradigma, metas palpáveis e a curto prazo.

Também haveria aí um descrédito generalizado não só da juventude, mas de toda sociedade nas instituições democráticas?

Não, não acho que é isso. Eu acho que tem uma desconfiança muito grande do que é o ser jovem na nossa sociedade. Nós somos uma democracia muito recente. Eu penso que a questão da juventude também é muito recente nessa discussão. Então, ao mesmo tempo em que ela fascina, também amedronta. Os jovens para os adultos têm esses dois lados: de fascinação, porque são jovens, bonitos, trazem novas experiências, esperanças. Mas ao mesmo tempo dão muito medo, como tudo que é muito novo. Como esse ator social só há muito pouco tempo passa a ser um ator social com visibilidade, com políticas específicas, com discussões e possibilidades, isso também traz muito temor. Os adultos ainda vêem os jovens de maneira muito negativa. Se você pegar a imprensa, vai ver que o jovem só aparece quando mata alguém, ou morre. As coisas importantes que acontecem na juventude dificilmente aparecem na imprensa. Eu acho que isso na percepção das pessoas funciona um pouco assim também.

Como a senhora acabou de falar, o reconhecimento da necessidade de políticas específicas para juventude é recente. Qual a sua avaliação das políticas públicas atuais?

Eu acho que o Brasil é o País da América Latina que mais mudou essa questão das políticas públicas para juventude. Apesar de ainda serem incipientes, com a criação de uma secretaria, um conselho da juventude, muitas coisas aconteceram, muitas coisas são discutidas. Se tenta visibilizar essa questão da juventude, se tenta pautar, se tenta efetivamente que as políticas sejam concretas. Eu acho que o Brasil tem muito que avançar, mas muito já se avançou pelo menos nas discussões, com a presença do Projovem, com o Conselho etc.

Sobre essa questão da formação para participação dos jovens, o que a senhora pensa disso? Esse não é um ponto importante na formação desse jovem enquanto indivíduo, na medida em que estimula o desenvolvimento de um senso crítico, uma consciência cidadã?

Eu acho que aí a escola desempenha um papel muito importante. A gente não pode esquecer que a escola é o lugar onde adolescentes e jovens permanecem até uma determinada idade a maior parte do seu dia e é a única instituição social com a qual eles têm contato. A outra é uma instituição privada, que é a família. Fora alguns jovens que estão organizados em ONGs, grupos etc. Então, a escola tem um papel fundamental aí. Tem o papel de trabalhar a questão dos valores, das relações sociais que são muito tensas, das violências que acontecem no mundo e na própria escola. A escola está muito assustada e muito espantada com esse tipo de população, o jovem e o adolescente que está entrando na escola e que de certa forma não se conformam mais com a escola tradicional, a escola de antigamente. Eu acho que a escola está dando conta muito mal da educação dos nossos jovens.

Sem contar que há um determinado momento da adolescência em que esses jovens saem da escola, porque nós não temos o ensino médio como deveríamos ter hoje no Brasil. Então, mesmo os que estão no ensino fundamental, muitos abandonam. Eu acho que essa é uma questão fundamental – a escolaridade, a possibilidade de ter na escola um capital cultural, social para se desenvolver, além do que ele traz de casa.

Mas essa formação para participação – esse aprendizado dos direitos de cada um, do funcionamento da democracia, do papel das instituições democráticas – não deveria integrar o currículo escolar de maneira mais explícita?

Deveria fazer parte do cotidiano. Não adianta ensinar, dar aula dizendo quais são os direitos. É preciso mostrar isso na prática. A escola é o lugar onde existe muita violência e muito pouco respeito. Por mais que você vá dar aula de direitos humanos, na realidade você tem um nível de preconceito, discriminação, racismo, homofobia, de violência dura dentro das escolas, de agressões verbais; então, o teu discurso está sendo contraditório, entendeu? Não é um problema dos parâmetros curriculares. O mais difícil é colocar isso em prática no dia-a-dia da escola, mostrar que as relações sociais podem ser diferentes dentro da escola. O clima escolar hoje é muito ruim. Então, é muito difícil você fazer isso. Dar uma aula de direitos humanos é muito mais fácil você, mas não tem efeito se não faz parte do seu cotidiano.

Mas esse aprendizado não pode servir como um instrumento para esse aluno transformar a realidade em que ele vive?

O que eu estou querendo dizer é o seguinte: a escola é responsável por muitas coisas. Ela se queixa muito por ter que dar não só as matérias que os meninos devem aprender, fazer provas etc, mas ela é responsável também por ensinar cidadania.

O que eu quero dizer é: você pode dar aula de tudo o que você quiser. No entanto, se não se mostrar na prática como isso funciona… Não adianta dizer que as pessoas devem ter civilidade, se os professores gritam com os alunos todo o tempo… É isso o que eu quero dizer, entende? Se os alunos estão se agredindo fisicamente ou xingando…

Eu acabei de lançar um livro sobre violência nas escolas aqui no Distrito Federal e se você der uma olhada na publicação no site da Ritla, vai ver o que acontece dentro das escolas. É um terror.

Não sou contra dar aulas de direitos humanos, mas as coisas têm que ser efetivas e para ser efetivas a prática é o critério da verdade.

Publicado em www.cenpec.org.br

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