O futuro do trabalho

No Novo Dicionário Aurélio profissão é sinônimo de carreira. Para o pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa, logo não será mais assim. “Uma carreira será feita de várias profissões”, prevê o especialista. Em entrevista à Ideal Comunitário, o professor defende uma educação que dê conta desse desafio e vê na aliança entre governo, empresas e terceiro setor a grande chance de o Brasil entrar de cabeça erguida no século XXI.

 

 

Com mais de 40 livros publicados, Antonio Carlos Gomes da Costa foi um dos autores do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e é referência nacional e internacional em educação e juventude.

Defensor do chamado “protagonismo juvenil”, que propõe, entre outras coisas, a participação ativa do adolescente na solução de problemas na escola, na comunidade e na sociedade, o pedagogo

mineiro aceitou, com prazer, o nosso desafi o. A convite da Ideal Comunitário, jovens da revista Viração e do Programa de Educação e Defesa Ambiental Ângela de Cara Limpa, da Sociedade Santos Mártires, enviaram suas dúvidas para o especialista.

Ao todo, foram quase duas dezenas de perguntas. E Antonio Carlos fez questão de responder todas elas, mesmo sabendo que não teríamos espaço suficiente para publicá-las. Discutiu-se a construção do Estatuto da Juventude, o papel da educação e alternativas para reverter o desinteresse dos jovens pelo conhecimento.

 

 

Entrevista

 

 

Um novo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou que a taxa de desemprego entre jovens de 15 a 24 anos é 3,5 vezes maior do que a dos adultos. Segundo a pesquisa, os jovens que enfrentam mais dificuldade para arranjar trabalho são os de baixa escolaridade, as mulheres e os moradores da periferia. O que fazer para reverter esse quadro?

 

Passamos por uma nova etapa do processo civilizatório da humanidade. Estamos saindo da Era do Capital, da Era Industrial, para a Era do Conhecimento. O trabalho está sendo cada vez mais condicionado pelas tecnologias da comunicação e da informação. Por outro lado, temos uma geração de jovens que deve fazer a travessia do mundo da educação para o mundo do trabalho. E, além disso, também terão de fazer a travessia do mundo industrial para o pós-industrial. A educação brasileira não deu conta dessa tarefa.

Uma política de juventude deve basear-se num tripé: educação de qualidade, educação profissional focada no mercado de trabalho e aproveitamento construtivo do tempo livre dos jovens com atividades de cultura, esporte e lazer.

É natural que nas periferias urbanas e nas zonas rurais pauperizadas essas oportunidades sejam escassas e de má qualidade, e muitas vezes sequer são oferecidas. Considero que a grande ação a ser realizada é formular uma política de juventude que seja fortemente direcionada para os segmentos mais vulneráveis dessa faixa etária. Trata-se de uma ação que deve ser redistributiva, mas também autopromotora, pois do contrário estaremos formando recorrentes crônicos das ações assistenciais do Estado.

 

Investir na profissionalização dos  jovens ajudaria a reverter esse quadro?

 

O cientista pernambucano José Leite Lopes foi aluno do cientista Albert Einstein na universidade americana de Princeton e um dos maiores físicos do Brasil. Em um de seus livros, Ciência e Libertação (Ed. Paz e Terra), ele relacionou a soberania e a independência de um país à ciência e à tecnologia. Foi o que a Coréia e o Japão fizeram e se tornaram grandes potências mundiais. Ele traçava um caminho desse tipo para o Brasil. Nos próximos anos, muitas profissões vão acabar, como aconteceu com a de datilógrafo ou de linotipista, e outras profissões que não existem hoje vão aparecer.

Vivemos, portanto, um momento interessante na educação profissional. O ensino técnico, que preparava a pessoa para ocupar um posto de trabalho (torneiro-mecânico, eletricista etc), agora prepara para o mundo do trabalho, para que a pessoa possa mudar de profissão ao longo da vida. Talvez as profissões dos jovens que estão ingressando hoje no mercado de trabalho acabem antes que a carreira deles. O que vai acontecer? Eles terão de mudar de profissão duas, três, quatro, cinco vezes. Uma carreira será feita de várias profissões. Infelizmente, a educação brasileira não está conseguindo acompanhar esse desafio.

 

O que, então, deveria ser feito?

 

As empresas não podem resolver sozinhas nenhum dos problemas brasileiros. Mas podem contribuir para a sua resolução fazendo o que no mundo empresarial é chamado de P e D, Pesquisa e Desenvolvimento de novos produtos. A função do Instituto Camargo Corrêa (ICC) na área de educação, por exemplo, é desenvolver soluções que não sejam alternativas às políticas públicas, mas sim alterativas, como um software replicável, que altere o funcionamento das políticas públicas. O desafio é desenvolver pesquisa e novas soluções para os problemas do país. Para isso, as ONGs precisam de ações intersetoriais, que abranjam o primeiro setor (o poder público), o segundo setor (o mundo empresarial) e o terceiro setor (organizações da sociedade civil, institutos e fundações empresariais). A aliança na base da ética da co-responsabilidade entre esses três setores é a esperança do Brasil para o século XXI. Se tivermos essa sinergia, vamos caminhar com botas de gato, andando sete léguas em cada passo. Se não fizermos isso, entraremos de cabeça baixa no século XXI. O Francisco Azevedo, diretor executivo do Instituto Camargo Corrêa, é um dos líderes dessa nova mentalidade no país. Nesse sentido, o ICC é um pioneiro. Faz parte das organizações que querem operar na lógica da co-responsabilidade.

 

“Trata-se da maior geração de jovens da nossa história. Portanto, hoje o grande desafioo é ajudar essa geração na travessia do mundo da educação para o mundo do trabalho”

 

O tema Jovens Negros e Negras foi colocado como prioridade  na  Conferência  Nacional de Juventude. Segundo o estudo do Ipea, o jovem negro é o que enfrenta mais dificuldade para arranjar trabalho. O que pode ser feito para acabar com essa desigualdade?

 

Nos anos 60, o presidente americano Lyndon Johnson criou uma série de ações afirmativas voltadas para a população negra. Os resultados, a meu ver, não foram exatamente os esperados em termos de impacto na promoção econômica, na ascensão social e na libertação cultural. As ações afirmativas devem ser nuvens passageiras. Não são, portanto, a verdadeira solução, mas sim o reconhecimento do nosso fracasso em fazer o que deveria ser feito. Em minha opinião, o grande caminho deve ter como centro a educação de qualidade para todos seguida de educação profissional, de oportunidades culturais e outras maneiras construtivas de utilização do tempo livre. Penso que o assistencialismo é uma solução emergencial e que só deve ser usado em curtíssimo prazo, quando não houver outra alternativa.

 

A solução para a inclusão desses jovens é, portanto, melhorar a educação?

 

É preciso melhorar a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio para todo mundo chegar à universidade em condição de disputar de igual para igual. Os jovens negros precisam de ações afirmativas não porque são negros, mas porque a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio não os prepararam adequadamente para o Ensino Superior. O que um ser humano se torna ao longo da vida depende das oportunidades que teve e das escolhas que fez. Temos de preparar as novas gerações para aproveitar as oportunidades e para fazer as escolhas certas. Não adianta ter as oportunidades e fazer escolhas erradas ou fazer escolhas certas e não ter oportunidade. Temos de dar para os nossos jovens a oportunidade de ter oportunidade e de fazer a escolha certa.

 

Um dos pontos discutidos na Conferência Nacional  de  Juventude  foi  o  jovem  e  o  trabalho.  Entre as prioridades apontadas nesta área estão crédito para a juventude e construção de um marco legal que viabilize o cooperativismo, a  economia  solidária  e  o empreendedorismo. Como o senhor avalia as propostas?

 

Estamos vivendo uma mudança profunda no processo civilizatório da humanidade e, portanto, no mundo do trabalho. A globalização dos mercados e o advento das novas tecnologias levarão a um processo que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) vem chamando de desmaterialização do trabalho. Diante disso, o ideal de pleno emprego tornou-se algo praticamente inalcançável na nova economia. O caminho, então, deverá ser criar alternativas de trabalho sem a criação de emprego. Nesse caso as opções discutidas na Conferência são o caminho que educadores, sociólogos e economistas têm vislumbrado para garantir trabalho e geração de renda para a juventude no mundo do trabalho, no qual o emprego tende a se tornar cada vez mais escasso. As reivindicações dos jovens (oportunidades de protagonismo, empreeendedorismo, educação profissional e utilização construtiva do tempo livre, entre outras) são justas e concretas. Hoje, no Brasil temos de fazer isso para entrar de cabeça erguida no século XXI.

 

Como preparar os jovens para esse novo mundo do trabalho?

 

Com a queda da taxa de natalidade da mulher brasileira, nunca mais o Brasil terá um percentual de jovens na sua população como temos hoje. Trata-se da maior geração de jovens da nossa história. Portanto, hoje o grande desafio é ajudar essa geração na travessia do mundo da educação para o mundo do trabalho. O artigo 2 da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) fala que a educação é direito de todos e dever da família e do Estado e terá como base os princípios de liberdade e os ideais de solidariedade humana. E quais são os fins da educação brasileira? O artigo 2º da LDB responde: a formação plena do educando, a sua preparação para o exercício da cidadania e a sua qualificação para o trabalho. Ou seja, queremos formar um jovem que seja autônomo como pessoa, solidário como cidadão e competente como profissional. Esse é o marco direcional da nossa política de juventude. E como você trabalha para formar pessoas, cidadãos e profissionais? Precisamos construir um banquinho de três pernas. A primeira perna é Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio de qualidade. A segunda é a educação profissional, que deve preparar o jovem para ingressar no mundo do trabalho, para ter uma ocupação, serviço ou profissão que lhe permita obter emprego e renda. Por último, precisamos formá-lo para ser um cidadão solidário. Esse é o desafio da juventude.

 

De acordo com dados do Censo 2005-2006 do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE), a faixa etária que mais recebe investimento social privado dos associados do grupo é a dos 15 aos 24 anos. O que falta para conseguirmos eficiência e eficácia nos projetos voltados para esse público?

 

No Brasil, não temos tradição de fazer políticas em conjunto para a juventude. Nossas ações, até aqui, têm sido fragmentárias e pontuais. Isso diminui a relevância e o impacto em face da magnitude da problemática a ser enfrentada. Hoje, o Brasil possui mais adolescentes e jovens do que crianças. A composição etária da nossa população mudou muito nos últimos dez anos. Portanto, o que eu recomendo são ações intersetoriais desenvolvidas dentro de uma ética de co-responsabilidade, abrangendo o poder público, o mundo empresarial e o terceiro setor. O investimento social privado, representado pelos integrantes do GIFE, é insuficiente para fazer frente a um desafio dessas dimensões.

Entrevista publicada na Revista Ideal Comunitário, do Instituto Camargo Corrêa, n.º 03 de julho de 2008.

As demais edições da revista estão disponíveis no site http://www.institutocamargocorrea.org.br/ideal.aspx

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