O filantrocapitalismo torna-se global

Matthew Bishop*

Quando em 2006, cunhei o termo “filantrocapitalismo” num extenso artigo para o The Economist, eu não tinha idéia que poderia desencadear tanto debate. É caricaturado freqüentemente como sendo apenas um interesse em desempenho e mensuração, mas eu acredito que seja muito mais do que isso. Acredito que marca uma nova partida radical na filantropia e em capitalismo com conseqüências sociais e políticas de longo alcance. [1]

Filantrocapitalismo envolve algumas das pessoas mais talentosas e de sucesso entre as quais está Bill Gates, colocando suas mentes nos problemas como a educação, doenças, mudanças climáticas e terrorismo. O que eles têm em comum é que eles são homens e mulheres vencedores por esforço próprio e que fizeram fortunas espetaculares reconhecendo tendências, desafiando ortodoxias e abraçando as oportunidades de globalização e de mudanças tecnológicas. Além de terem enormes fortunas para doar, eles têm os relacionamentos, as influências e o entendimento de como funciona o mundo.

Eles estão longe de qualquer cristão na forma de como doar. Alguns, geralmente do setor financeiro, aplicaram seu talento para investir em doações. Warren Buffett, como investidor, tende a selecionar um punhado de empresas das quais é acionista há décadas e tem repetido esta mesma fórmula para doar boa parte do seu dinheiro para o homem que ele enxerga como o “melhor do negócio”, Bill Gates.

O chefão Britânico dos fundos Hedge, Christopher Cooper-Hohn, um investidor financeiro, está adotando um enfoque baseado em medições para doar por meio dos Fundos da Fundação de Investimentos para Crianças que ele criou com sua esposa Jamie. Outros preferem o enfoque da grande visão, como é o caso de Ted Turner que, com sua promessa de $1 bilhão para sustentar as Nações Unidas em 1997, marcou o início da era do filantrocapitalismo.

Em contraste a Gates, que está liderando grandes iniciativas para resolver grandes problemas globais, outros filantrocapitalistas estão promovendo mudanças de baixo para cima. Jeff Skoll, da eBay, está apoiando iniciativas sociais e ajudando a dar uma novo alento de vida ao setor do “sem fins lucrativos”. A estrela do rock, Bono, vê seu papel em mobilizar a opinião pública utilizando o poder da “celantropia” para defender grandes aumentos de ajuda para os países em desenvolvimento, trabalhando por meio da sua organização DATA (Dívida, AIDS, Comércio, África) a força atrás da campanha “One”.

Como o capitalismo, o filantrocapitalismo é um fenômeno global, com uma nova geração de filantropos ambiciosos emergindo do mundo em desenvolvimento. Pessoas como o bilionário mexicano das telecomunicações, Carlos Slim, que prometeu doar $10 bilhões para lutar contra a pobreza na América Latina ou o magnata indiano de softwares, Azim Premji, que está levando educação para crianças pobres, trazem novas percepções e competências para o desafio do desenvolvimento. Talvez, o melhor exemplo de todos seja o do chefão sudanês de telefonia móbil do Sudão, Mo Ibrahim. Sua experiência nos negócios o convenceu que a pobreza da África será derrotada somente pelas mudanças políticas; ele usa seu prêmio anual de melhor político africano outorgando-o a quem dê abertura para debater as lideranças políticas.

A força do capitalismo está em criar um ambiente onde a inovação é premiada e o filantropismo promete levar esse dinamismo para o mundo das doações. É desafiante para os titulares, é tumultuante e erros serão cometidos; no entanto a sua “destruição criativa” poderá trazer não somente um “boom” nas doações como também um surto com seu impacto.

Alguns críticos estão preocupados que o filantrocapitalismo poderá, de alguma forma, minar a democracia e a sociedade civil e corroer a responsabilidade governamental. O medo ao poder político dos ricos não é novidade, mas moldar o rico como inevitavelmente auto-indulgente e antidemocrático está errado. Desde a primeira idade de ouro da filantropia moderna na Europa Renascentista, o rico freqüentemente tem mostrado ser mais responsivo às necessidades dos pobres do que o estado. Duzentos anos atrás, William Wilberforce liderou a campanha contra o comércio escravocrata. Hoje, filantropos como George Soros, estão patrocinando as mudanças democráticas por todo o mundo.

Certamente, há necessidade de ser transparente e os ricos precisam ser responsabilizados pelos resultados de suas filantropias e não só celebrar o tamanho delas. Estes são os princípios que deveriam alinhavar o novo contrato social entre os ricos e o resto.

O Filantrocapitalismo terá sucesso em alcançar seu considerável potencial somente se seus expoentes levarem a sério os desafios de comportarem-se como empresários para lidar com os grandes temas de hoje. Eles precisam ser inovadores, ponderados, analíticos, induzidos, cooperativos e, como não existem parâmetros simples de sucesso em filantropia, brutalmente honestos e autocríticos sobre como estão indo. Felicito-os para que tenham sucesso.

Matthew Bishop é Redator Chefe de Negócios e American Bussines Editor do The Economist. E-mail mattewbishop@economist.com

1 Este artigo baseia-se numa abertura de um encontro para discutir Filantrocapitalismo patrocinada pelo Fórum Global de Filantropia. Os pontos de vista e idéias expressos nele foram discutidos extensivamente em: “Filantrocapitalismo: Como o Rico Pode Salvar o Mundo”, de Matthew Bishop e Michael Green, a ser publicado em desembro.

Publicado em http://www.gife.org.br/alliancebrasil/noticias.php?codigo=119

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