Um Novo Olhar sobre a Mobilização de Recursos

P

ara a ABONG, a visão de mobilização de recursos sempre esteve vinculada a uma visão de sustentabilidade conectada à identidade política das organizações. Antes mesmo de o conceito de “mobilização de recursos” ser cunhado, já atuávamos com o que ele propõe de renovação em relação ao conceito de “captação de recursos”.

Este conceito compreende que recursos são todos aqueles necessários para o desenvolvimento de uma organização e, assim, abarcam recursos financeiros, materiais e técnicos: as pessoas, as organizações e as relações. Compreende também que a mobilização é a ação de educar e de engajar política e economicamente a sociedade na causa e na atuação das organizações da sociedade civil, formando assim  uma base social de apoio a estas organizações.

O livro “Mobilizar para transformar”, lançado esta semana, em parceria, pelas organizações integrantes do Programa de Mobilização de Recursos da Oxfam esmiúça uma série de outras renovações que o conceito – e seu emprego prático – traz para a trajetória de desenvolvimento institucional das organizações.

Mobilizar recursos, no enfoque adotado pela obra, do qual a ABONG compartilha e o qual adota em sua ação política, expressa o processo pelo qual uma organização promove, em um mesmo movimento, educação cidadã, mobilização social e mobilização de apoio material, técnico e financeiro. As estratégias de fortalecimento da sustentabilidade institucional são mobilizadoras da consciência social cidadã. Em um só movimento promovem-se engajamento social e fortalecimento da organização.

Para a ABONG, a renovação proposta por este conceito se faz necessária hoje num Brasil em que a democracia não só tolera, mas neutraliza violações de direitos humanos e a sociedade civil enfrenta novos e tantos desafios no que diz respeito ao diálogo com a população para denunciar e angariar apoio para estas denúncias e para as ações propostas para superar estas desigualdades e violações.

Vivemos uma cultura de pragmatismo acima da política, e as organizações não governamentais estão em toda parte e sendo representadas (no espaço público, entre as pessoas e na mídia) das maneiras mais diversas. Isso nos impõe um desafio relacionado à sustentabilidade destas organizações enquanto campo ético e político. Neste sentido, o conceito de mobilização de recursos também demarca um campo político de organizações que buscam disputar na sociedade um conceito de organização relacionado ao agir e fazer políticos.

A noção de mobilizar também carrega em seu bojo uma concepção renovada de comunicação, não apenas como instrumento de ação, mas como estratégia e política de construção deste outro projeto de sociedade que queremos. Entender a comunicação como um ato político é fundamentalmente trabalhar para tornar-se visível, publicizar as conquistas sociais da ação política das organizações e posicionar-se publicamente, condições para que uma organização estabeleça interlocução e ganhe credibilidade ante diversos atores sociais. Ao tomar a comunicação desta maneira, as organizações colhem os resultados políticos de um maior envolvimento e conhecimento da sociedade em relação não somente a suas ações, mas também em relação a suas bandeiras de luta. Passa a haver uma maior sinergia entre a organização e a sociedade.

Em um momento em que organizações e movimentos são desafiados e pressionados pela necessidade de sustentabilidade, é importante manter alinhadas as estratégias de mobilização de recursos e os princípios políticos das organizações. Importante ressaltar que a inexistência de um marco legal que regule as relações entre Estado e estas organizações torna esta situação ainda mais delicada. E a ABONG luta historicamente pela constituição deste marco.

Todas estas renovações contidas no conceito de mobilização de recursos nos unificam enquanto campo político, nos fortalecem e nos movem a enfrentar os desafios da sustentabilidade cientes de que acertamos quando agimos coletivamente em apostas fundamentais de transformação como esta construção.

 

Publicado em Informes Abong Nº 429 – 4 a 18 de setembro de 2008.

www.abong.org.br

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