Livro relata experiências em mobilização de recursos

A

luta pela sustentabilidade das organizações da sociedade civil ganha novos ares com o conceito de “mobilização de recursos”. Ele expande o entendimento sobre captação, rompendo com seu caráter unidirecional, e afirma que os recursos não são apenas financeiros, mas também técnicos, políticos e humanos; que devem ser mobilizados para um projeto de sociedade e de transformação social, e não apenas para sustentar uma organização. “A idéia-chave deste conceito é que não se busca recursos nos bolsos das pessoas, mas se promove um diálogo, se interpela, se persuade para a adesão a uma causa social que a organização defende”, explica Domingos Armani, autor do livro “Mobilizar para transformar”.

Publicado pela Oxfam GB e a editora Peirópolis, o livro foi lançado em São Paulo no último dia 2 como fruto de um processo de 5 anos do Programa de Mobilização de Recursos – PMR da organização britânica. A obra – lançada em parceria com a ABONG, a Ação Educativa e a Ashoka – traz relatos e debates sobre estratégias de sustentabilidade em organizações em todo Brasil.

Para Armani, o conceito afirma engajamento social e fortalecimento da organização em um só movimento. “As parcerias em prol de uma causa são mais duradouras e têm maior capacidade de impacto social. São mais efetivas”, conta.

Janaína Jatobá, hoje do Instituo C&A, mas que coordenou por 7 anos o PMR da Oxfam, conta que a pedra fundamental da obra é o desafio do desenvolvimento institucional de organizações da sociedade civil no Brasil, na medida em que trata dos recursos tangíveis e intangíveis que promovem a sustentabilidade destas organizações. “Este processo, coroado pela obra, nos mostra que não existe receita de mobilização de recursos, e que as organizações devem olhar para dentro delas, criar e manter espaços de debate internos para a auto-reflexão contínua e política de seu trabalho e da construção de sua identidade”, afirma Janaína, avaliando que o PMR promoveu uma mudança estrutural nas organizações envolvidas no programa.

“Nosso grande desafio, enquanto organizações de um campo político que luta pelos direitos humanos e pela justiça social, é promover uma reapropriação e uma valorização do sentido de ‘público’ no Brasil, afirmando uma sociedade civil forte e atuante. Nossa história faz com que as pessoas se desinteressassem pelo público e prefiram agir no privado”, afirma Vera Masagão Ribeiro, coordenadora de projetos da Ação Educativa, ressaltando o papel fundamental da ABONG na luta pela construção de um marco regulatório para o país. “Esta cultura é favorecida pela falta de regulação, por um ambiente legal e tributário que favorece este entendimento”, diz.

 “A diversidade de experiências que vivenciamos nos dá condição de olhar para algumas outras e afirmar que não são estratégias que gostaríamos de aplicar em nossas organizações para sua sustentabilidade. Isso nos unifica e nos constitui enquanto campo político, de organizações que lutam para reverter a situação de retirada e violação de direitos no Brasil”, afirma Tatiana Dahmer, da diretoria colegiada da ABONG. Para ela, a sustentabilidade das organizações só se dá se houver atrelamento das estratégias de mobilização de recursos a seus princípios éticos e políticos.

Vera e Tatiana ressaltam também o aprendizado do processo em relação à comunicação. Para Tatiana, um ato político. Para Vera, “não mais uma atividade interna, mas uma estratégia de mobilização e efetivação das causas sociais”. Janaína concorda. “Não se pode mais pensar as áreas ditas técnicas desvinculadas do político. É preciso pensar como a comunicação reflete a forma de pensar e agir da organização. E o mesmo serve para a área de gestão. O desafio é como integrar os princípios da organização em seu dia-a-dia, no fazer para dentro”, diz.

Armani conta que a grande contribuição do conceito é a de que mobilizar para transformar é interpelar a sociedade para apoiar organizações deste campo político, que luta para aprimorar, dar dinamismo e vitalidade e aprofundar a democracia.

 

Publicado em Informes Abong    Boletim Eletrônico da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais – ABONG – 04 a 18 de setembro de 2008 –  Nº 429.

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