Uma conversa ao redor do fogão

“Dois problemas se misturam. A verdade do Universo e a prestação que vai vencer”
Raul Seixas

Por: Rodrigo Alvarez

Captar recursos é uma atividade fundamental e tida pela grande maioria das organizações da sociedade civil como um dos maiores desafios na gestão profissional. Nos últimos anos, tem sido um dos temas de cursos, palestras e seminários mais procurado por profissionais que atuam nessas organizações. Via de regra, as questões que mobilizam essas pessoas a procurarem os cursos são: “Onde eu acho os recursos?”, “Quais são as fontes de financiamento que têm mais recursos?”, “Como chegar a essas fontes?”.

Certamente essas perguntas são importantes para quem está num processo de captação de recursos, mas há outras que estão mais na raiz da questão da sustentabilidade das organizações: “Somos capazes de criar projetos inovadores para enfrentar os problemas que nos propomos a resolver?”, “Nossa equipe é competente o suficiente para conceber e implementar projetos ousados?”, “Nosso conselho está envolvido com a organização, nos ajudando nos caminhos de futuro?”, “Os doadores atuais estão realmente satisfeitos e envolvidos com nossa organização?”. Em outras palavras: “Estamos prontos para captar recursos?”.

Selecionar potenciais parceiros, escrever projetos, fazer visitas a fundações, realizar campanhas com indivíduos, entender das isenções fiscais, criar um banco de dados são certamente atividades fundamentais para o captador de recursos e para a organização. Porém, se a resposta para essa última pergunta for negativa ou evasiva, provavelmente todas as atividades podem nos levar a uma prática artificial.

Não por acaso, o captador de recursos é chamado de “profissional de desenvolvimento institucional”. Justamente porque seu papel é conhecer e procurar intervir em diversas questões do desenvolvimento da organização, já que todas elas refletirão na capacidade dessa organização captar recursos de maneira mais sustentável para sua causa.

Organização e causa

O crescimento avassalador do setor da sociedade civil organizada no Brasil nos últimos anos – cerca de 60% das organizações existentes hoje no país nasceram nos anos de 1990 – e a influência da cooperação internacional e das empresas privadas como parceiros dessas organizações pressionam a que elas tenham uma preocupação quase paranóica para importar conceitos empresariais para o dia-a-dia delas. Hoje, percebemos que isso trouxe um avanço para algumas organizações em termos de planejamento, organização, estrutura, avaliação, resultados etc.

Mas o lado perverso dessa pressão é tentar estabelecer no ambiente social um ritmo apropriado para o ambiente econômico. Em termos de captação de recursos, esse lado perverso se reflete na busca desenfreada por recursos, quando vale mais os interesses da organização do que a causa em si. Essa postura cega os gestores para as reais demandas sociais e faz com que se trabalhe somente em prol das demandas da própria organização. É quando uma organização da sociedade civil começa a trabalhar mais como uma organização com interesses privados.

No outro extremo, trabalhando em prol da “causa”, um gestor social (ou o captador de recursos) passa a tratar sua atividade de captação de recursos mais como “mobilização” de recursos, em que não há um processo de captar no sentido de atrair ou conquistar, mas de mobilizar, movimentar.

Um (o que capta) parece que trata o interlocutor como objeto, doador, e estabelece, sem querer, uma relação vertical, muitas vezes à base de culpa social. O outro (que mobiliza) trata o interlocutor como sujeito, parceiro, e estabelece uma relação horizontal, à base de envolvimento e responsabilidade. Claro que esses conceitos são teóricos, e não existe certo ou errado nessa história. Na prática, podemos falar a toda hora de mobilização de recursos e praticar o contrário, e vice-versa.

Podemos também oscilar entre os extremos, ou seja, em alguns casos ter uma prática mais captadora e, em outros, mais mobilizadora. O que importa é ficarmos atentos a nossas atitudes e nossos padrões. Pensando nesses conceitos, em nossa organização, predomina mais a prática da captação ou da mobilização? Vamos conversar mais sobre isso?

Fontes de pesquisa:
www.captadores.org
www.institutoelosbr.org.br
www.resourcealliance.org

Rodrigo Alvarez. Vice-presidente de Desenvolvimento Institucional da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), responsável pela Área de negócios e Mobilização de Recursos do Instituto Elos e Consultor da The Resource Alliance no Brasil

Publicado em Revista Filantropia – Online n.º 163

www.revistafilantropia.com.br

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s