Profissionalização da mobilização de recursos

Apesar de ser uma preocupação antiga e muito presente no Terceiro Setor, a captação passou recentemente a ser encarada de forma mais profissional e séria

Ader Alves de Assis Jr.
aderjr@fundocristao.org.br

Um dos maiores desafios das organizações sem fins lucrativos brasileiras é o desenvolvimento e a diversificação dos recursos para garantir a sua atuação junto à sociedade civil. Portanto, ampliar as fontes de financiamento e recursos se tornou necessário para que as entidades, além de sobreviver, possam ser efetivas no cumprimento de sua missão organizacional junto aos diversos atores.

Para garantir a sustentabilidade de projetos institucionais, a busca pela profissionalização das organizações tem sido cada vez mais presente no Terceiro Setor. Nos últimos anos, houve um amadurecimento do setor, com entidades mais estruturadas, determinadas e focadas em seus objetivos.

Entretanto, há ainda algumas barreiras culturais a serem vencidas, como a utilização de técnicas de marketing, a aproximação com o mundo corporativo e a participação mais ativa da sociedade civil. Isso requer investimento, capacitação e técnica.

As empresas utilizam técnicas de marketing e comunicação para desenvolver e fortalecer o conceito de suas marcas no mercado, visando o crescimento das vendas de seus produtos e serviços. No Terceiro Setor, as organizações da sociedade civil precisam aplicar esses mesmos conceitos e técnicas no dia-a-dia para obterem sucesso na mobilização de recursos.

Seguindo o exemplo de outros países, a utilização dessas técnicas começou a mostrar resultados já na década de 1970. Marketing é a base de apoio, a parte invisível aos olhos do ambiente externo, mas que sustenta a comunicação em suas diversas formas.Assim, o sucesso das atividades desenvolvidas para a mobilização de recursos está diretamente relacionado à capacidade de identificação de seus públicos, envolvendo seus desejos, percepções e expectativas.

Antes, o mercado era de um para muitos e hoje é de muitos para um. Isso porque novas organizações vêm surgindo cada vez mais, e a procura por indivíduos, empresas e agências de desenvolvimento capazes de se tornar doadores tem aumentado consideravelmente. É preciso compreender que a experiência e a capacitação profissional se tornam cada vez mais importantes para o aumento da efetividade das ações de mobilização de recursos no Terceiro Setor.

A busca por parcerias e projetos com o setor privado é extremamente necessária e importante para o crescimento das entidades sociais nacionais. O mundo empresarial, que fora tão distante às instituições do Terceiro Setor e julgava-as gerencialmente amadoras, está cada vez mais sensível às questões sociais e tem dedicado recursos de vários tipos a esse campo.

Outro exemplo é a aproximação com a sociedade civil para a mobilização de recursos. São milhares de indivíduos dispostos a contribuir para as atividades das organizações sem fins lucrativos.

Todos esses novos atores envolvidos no Terceiro Setor exigem uma comunicação profissional e direcionada. O termo captação de recursos é comumente associado à mobilização de fundos financeiros, restringindo-se a atividade a duas grandes práticas: elaboração de projetos e campanhas ou ações permanentes para angariar fundos de indivíduos ou empresas. Essas são práticas importantes, mas uma política de mobilização de recursos apoiada apenas nessas duas atividades pode se revelar bastante limitada e, às vezes, até inadequada.

Na redução do poder aquisitivo de grande parte da população brasileira, a ausência da tradição de contribuição financeira para projetos e causas sociais, o trabalho do governo em limitar as deduções fi scais e a escassez de recursos cada vez maior das fontes de financiamento tornam a mobilização de recursos mais complexa, embora não impossível.

O perfil diversificado do mercado e as atuais condições econômicas brasileiras nos encorajam a implementar uma estratégia de mobilização de recursos mais diversifi cada, criativa e adequada, ampliando a noção de capital. Assim, o conceito de mobilização de recursos é algo que vai além das finanças. Inclui a disponibilidade de tempo, prestação de serviços profissionais, fornecimento de mão-de-obra, enfim, tudo o que engloba o voluntarismo.

A implementação da Lei do Voluntariado ampliou ainda mais o conceito de mobilização de recursos e garantiu uma maior participação da sociedade nas ações e práticas sociais brasileiras. Mobilizar recursos não é um evento, mas um processo que valoriza o exercício da liberdade de comprometimento e participação de todos os atores da sociedade civil, partindo de seus talentos e capacidades pró-ativas, de forma que estes se tornem co-responsáveis pelas atividades sociais da organização.

O comprometimento e a participação são os mais valiosos patrimônios que uma organização sem fins lucrativos pode alcançar. O objetivo é obter a confi ança dos atores envolvidos e construir relacionamentos fortes e duráveis para que saibam que vale a pena investir e apoiar o seu trabalho, suas ações, propostas e idéias. Isso torna a mobilização de recursos mais uma arte do que uma ciência, mais uma capacidade do que uma técnica.

Uma estratégia de mobilização de recursos efetiva e apropriada proporciona às entidades uma maior autonomia frente às exigências e mudanças solicitadas por parte das fontes de recursos, mantendo sua identidade, valores e missão organizacional. Mais do que auto-sustentação, trata-se da sustentabilidade dos objetivos e iniciativas da organização, garantindo a responsabilidade e transparência com a sociedade civil.

Imagine só, com tantos problemas que existem no Brasil, a mobilização de recursos se torna fundamental para as organizações brasileiras. O Brasil tem um Produto Interno Bruto de R$ 800 bilhões, que representa a nona economia social. O brasileiro, em média, consome 60 quilos de carne por ano per capita, enquanto o mundo inteiro come 38 quilos.

O Brasil produz mais de 1 bilhão de toneladas de grãos, o que dá a média de 300 quilos para cada brasileiro. Esses dados realmente mostram que fome não é o problema do Brasil. O grande problema é ser um país de contrastes. É um país rico, mas com gente pobre: são 50 milhões de pessoas que vivem em condições de indigência, com renda inferior a R$ 80.

Diante desse quadro, um novo caminho vem sendo construído, por meio do envolvimento direto e indireto de diferentes setores da sociedade civil, indivíduos, organizações e empresas que em parceria ou não com o governo propõem-se a participar das questões sociais. Esse movimento da sociedade pode aparecer como uma alternativa de organização e trazer respostas inovadoras.

Ainda há muito o que fazer, mas estamos aprendendo, com a nossa prática e com a experiência de países onde a solidariedade social existe como exercício de cidadania, a fazer um Brasil mais digno, transformando cidadãos e comunidades independentes.

Ader Alves de Assis Jr. Jr. Gerente de marketing e mobilização de recursos do Fundo Cristão para Crianças, mestre em Administração e professor de Marketing do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH).


Publicado em http://www.revistafilantropia.com.br/revista/admin/newsletter/RFOL/news49.html

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