Doação individual: fazendo-a ser percebida

Peggy Dulany, Adele Simmond e Rory Tolentino*

Apesar de pessoas de todos os setores da sociedade sempre doarem à caridade, o apelido “filantropo” tem sido dado tradicionalmente aos ricos industriais não importando se as fortunas foram feitas do petróleo ou aço (Rockefeller e Carnigie), ou software, ou finanças. (Gates e Buffett). Hoje, no entanto, a filantropia se popularizou. Brad Pitt, Angelina Jolie e Bono têm ajudado refugiados, aos grupos de direitos humanos, aliviando dívidas e em causas célebres. E se os executivos da NBC conseguirem o que desejam a filantropia logo mais poderão chegar à sua casa através de um canal de televisão.

Entre os shows do horário nobre programados para o inverno de 2009, está “O Filantropo”, o herói que será “o primeiro Filantropo Vigilante”, um bilionário que usa sua riqueza, sua rede de relacionamentos e seu poder para ajudar pessoas necessitadas: em vez de gastar US $ 25.000 o prato num evento beneficente, ele foge das balas nos países do Terceiro Mundo para entregar vacinas em mãos. O próximo papel de George Clooney?

Enquanto as celebridades podem contribuir com dinheiro e chamar a atenção pela fama que têm, a maioria dos doadores individuais não consegue nem ser mencionada na última página da imprensa, na primeira… nem sonhando. No entanto, eles fazem a diferença. US$10.000 podem ter um profundo impacto num projeto de irrigação de uma vila. US$ 50.000 podem financiar pequenos empréstimos para toda uma vizinhança numa cidade Africana. Somada a outras doações, US$100.000 podem fornecer capital de investimento para um fabricante de vacinas de baixo custo nos países em desenvolvimento. A escala dos doadores de US$ 1.000.000 até US$ 5.000.000 é diferente.

A chave disto é identificar qual é a melhor forma de usar cada uma das doações. Isto significa ter uma idéia muito clara de qual é a paixão do filantropo, o tamanho dos recursos dela ou dele e o nível de participação desejado. Isto então requer estar ciente de que negócios e filantropia exigem habilidades diferentes. Os bons doadores podem adaptar seus talentos empreendedores para negócios e aplicá-los no seu trabalho filantrópico; só que, desenvolver um negócio de sucesso e criar um projeto eficiente na saúde, implicam esforços qualitativos totalmente diferentes. A seguir algumas dicas para doações individuais inteligentes.

O que o filantropo individual tem a oferecer

Uma pessoa, ou até uma família muito coesa, podem conseguir muito se acreditarem numa idéia ousada planejando os recursos sociais, financeiros e profissionais e no engajamento num ideal. Os filantropos precisam começar com um entendimento claro dos assuntos, ter a capacidade de ouvir as pessoas que serão beneficiadas com a sua doação, desejar colaborar visando o impacto máximo e confiar no raciocínio estratégico com planejamento e persistência. Em resumo, um compromisso para agir de forma que possa aumentar as probabilidades de fazer mudanças que perdurem.

Quais são algumas das vantagens que o filantropo individual tem sobre os grandes fundos? Para começar os doadores individuais são mais ágeis que as grandes fundações.

As decisões e ações podem acontecer com maior velocidade permitindo agir rapidamente em casos de necessidades urgentes. Por exemplo, Jeff Horowitz, há tempo se interessava na troca do Carbono como uma solução para o aquecimento global. Quando ele percebeu que não havia suficiente regulamentação destinada a reduzir as emissões de carbono originadas em queimas de florestas e degradação (REDD), licenciou-se da sua participação societária do escritório de arquitetos de São Francisco, a KMD Arquitects, para fundar o Avoided Deforestation Partners (Parceiros da Prevenção de Desflorestamento); uma empresa internacional sem fins lucrativos que promove políticas de mercado para proteger e incrementar o ecossistema florestal. Horowitz agora dedica seu tempo em convencer políticos e líderes corporativos muitos deles conhecidos na sua antiga atividade, sobre a REDD (Regional Ecosystem Description Database, algo como Cadastro das Descrições dos Ecossistemas Regionais).

Da mesma forma, indivíduos e famílias podem arriscar mais do que as grandes organizações em assuntos que evitariam entrar, tais como experimentar novas tecnologias ou apoiar idéias ainda não testadas. Em 1991, quando Martin Fisher e Nick Moon fundaram uma organização que mais tarde seria a KickStart, uma organização sem fins lucrativos no Quênia que desenvolve, fabrica e distribui tecnologias inovadoras como bombas para micro-irrigação, materiais para construção e fabricação de ferramentas, eles aplicaram a poupança e lucros provenientes de um contrato que tinham para fabricar latrinas nos campos de refugiados Somalis. Este primeiro investimento permitiu a KickStart afinar o seu modelo e colocou a organização num ritmo de crescimento rápido. Hoje a KickStart trabalha na África Subsaariana e sua rede de distribuição chega às mais remotas regiões.

Devido a sua independência, os filantropos individuais frequentemente trazem novas idéias e novas estratégias para resolver problemas deixados de lado por outros. A educação e o treinamento são exemplos das preocupações persistentes de muitos dos filantropos, no entanto, muitos têm dificuldade em transpor as barreiras políticas, econômicas e sociais que mantêm as pessoas atoladas na pobreza. Essas barreiras são as mais altas de todas em regiões onde o desemprego crônico tem criado um ciclo de frustrações, perda de esperança e raiva. Em 2004, Ron Bruder desenvolveu a Fundação Educação para Emprego, gerando oportunidades de trabalho para jovens desempregados em países de maioria muçulmana dando-lhes treinamento profissional e técnico de primeiro mundo encaminhando-os para uma carreira profissional. Através de parcerias com empresas, escolas e governos, a F.E.E. fornece aos jovens as ferramentas e o treinamento necessários para prosperar no ambiente empresarial acompanhando-os com um sólido programa de tutoria para garantir um sucesso duradouro.

Os doadores individuais também são organizadores ideais e intermediários de relacionamentos. Quando Uday Khemka queria chamar a atenção dos doadores para o tema de como evitar as ameaças potenciais das mudanças climáticas sobre as pessoas carentes do mundo, o empresário indiano reuniu os filantropos com peritos em mudanças climáticas do mundo todo para uma série de reuniões com o objetivo de explorar alternativas para mitigar as mudanças climáticas. Foram reuniões informais e orientadas para a implementação de ações. O resultado? A fundação da “Filantropia para a Rede de Ações de Mudanças Climáticas” formado por um grupo de filantropos individuais e de fundações comprometidas a fazer intercâmbios de boas práticas e coordenar estratégias e planos de ação em torno das mudanças climáticas.

O que faz de uma pessoa um bom filantropo?

Então, o que faz de uma pessoa um bom filantropo? O mesmo que faz um bom filantropo institucional: acima de tudo, a vontade de ouvir as pessoas do campo. No final de contas, o impacto do trabalho do filantropo depende da vontade das pessoas da localidade em levar as ações adiante. Uma coisa é um doador financiar pesquisas de AIDS e outra coisa totalmente diferente é montar uma clinica para Aidéticos. Têm que levar em consideração um mínimo de desafios: a falta de transporte para chegar à clínica; a falta de água potável para limpeza e desinfecção, tabus contra as pessoas aidéticas e práticas sexuais da região que disseminam o vírus.

A eficácia do doador aumenta de forma dramática se visualizar a doação de forma consistente com a cultura e os valores locais. Os filantropos, mesmo com as melhores das intenções, se não se derem tempo para estudar o terreno e colher informações, podem cometer uma gafe se ignorarem o contexto cultural ou seguirem em frente sem as devidas consultas. Com humildade e paciência se chega longe no objetivo de ajudá-los a atingir suas metas. Por exemplo, quando a doadora Ann Lurie viu uma lacuna no tratamento médico no Quênia rural, ela fundou uma clínica móvel para fazer diagnósticos, tratamentos, prevenção e educação de saúde dirigida às comunidades não atendidas. Os parceiros locais não só ajudaram a manter a unidade móvel como também contribuíram para a construção de clínicas.

Os bons filantropos também procuram alavancagem por meio de sociedades, alianças e colaborações. Como Betsy Brill, presidenta e fundadora da Filantropia Estratégica Ltda., diz: “trabalhar isoladamente não é a receita para o sucesso. A alavancagem, o conhecimento, a experiência e o relacionamento com outros filantropos somados, levam aos objetivos desejados. Estar atento, seguir a própria instituição e rodeado de recursos filantrópicos profissionais, os filantropos irão longe e garantirão investimentos sociais eficientes.”.

Afortunadamente, os recursos dos doadores individuais na década passada cresceu dramaticamente. A rede de doadores como o Global Philantrophy Fórum e a Synergos’s Global Philanthropist’s Circle, oferecem oportunidades para outras redes e colaboradores enquanto organizações como a Ásia Foundation fornecem os meios para dar apoio à governabilidade, às leis, à sociedade civil, à participação da mulher para o desenvolvimento econômico e relações internacionais. Para filantropos à procura de soluções mais de mercado, os fundos de risco sem fins lucrativos como o Acumen Fund, usam abordagens de profissionais empreendedores para resolver os problemas globais de pobreza.

Estratégias de pesquisas e procura de melhores práticas com a ajuda de uma rede de filantropos, constituem um bom lugar para começar. As organizações intermediárias, grupos que angariam fundos em nome de uma variedade de pequenas organizações que geralmente estão agrupadas em volta de um tema ou região, formam uma das maneiras mais práticas e eficientes para que um doador individual possa causar impacto imediato. O Fundo Global para Mulheres, o Fundo Greengrants, o Fundo Global Para Crianças, Mama Cash e outros intermediários criaram uma rede de beneficiários e programas baseados em habilidades.

Uma doação relativamente modesta pode ter grande impacto quando canalizada via intermediários. Com o simples conhecimento de que recursos estratégicos existem no solo, no campo ou numa área geográfica, pode agregar valor aos esforços do doador individual.

Para qualquer doador, “tirar o máximo proveito da grana” é um ponto a ser considerado e a colaboração tem um forte efeito multiplicador. Como Presidente da GITI Pneus, uma das líderes do mercado que fabrica pneus na Ásia, Enki Tan conseguiu alavancar a presença da GITI na Ásia para dar apoio ao trabalho da Conservation Internacional (CI), de onde é membro da diretoria. Em Dezembro último, a GITI doou US$ 1.000.000 para os projetos da CI no norte de Sumatra (Indonésia) e nas montanhas do sudoeste da China. Além do mais, em Setembro passado, Tan e sua esposa Cherie Nursalim, organizaram o Leilão Azul, um evento beneficente black-tie em benefício das obras da CI em preservação marinha.

Auspiciado pelo Príncipe Albert II, no museu oceanográfico de Mônaco, a Christie leiloou a concessão de direitos de nomear dez espécies de vida marinha descobertas recentemente na Costa da Bird’s Head Seascape na província de Papua, Indonésia. O leilão levantou US$ 2.500.000, incluindo a oferta de US$ 480.000 da GITI. Em ambos os casos, foi muito mais que dinheiro: era sobre como utilizar relações pessoais e profissionais para movimentar o trabalho. (veja a p. 40 para conferir a entrevista com Cherie Nursalim).

Os doadores que desejam por a mão na massa da filantropia, poderão investir mais tempo e recursos no planejamento. Por exemplo, quando um doador decide começar uma fundação, até mesmo as tarefas mais triviais como elaborar um pedido de autorização ou criar diretrizes, podem virar perdas de tempo e distração. Doadores associados e doadores conselheiros podem ajudar a desenvolver uma estratégia eficiente. Doadores que decidem montar uma organização para de fato trabalhar nelas, enfrentam outros tipos de desafios: registrá-la como sendo sem fins lucrativos, organizar uma equipe, formar infra-estrutura local e angariar fundos.

Progredindo: melhorando a efetividade das doações individuais

Para os experimentados doadores individuais, o desafio eterno é a ampliação. Uma estratégia especialmente criada para um indivíduo ou uma fundação familiar com muito dinheiro é expandir um programa de sucesso. Por exemplo, os doadores individuais foram de grande ajuda para juntar os Partners in Health (Parceiros da Saúde), uma rede de postos de saúde avançados estabelecida originalmente no Haiti, em vilas de Ruanda e Lesoto. O fundador de Parceiros da Saúde, Paul Farmer, afirma que os doadores individuais são mais flexíveis e giram dinheiro mais rapidamente que outras fontes. Do ponto de vista dos doadores, financiar a expansão de uma comprovada ação benéfica poupa tempo e recursos.

De forma inversa, um pequeno doador pode fazer uma parceria com uma grande organização para ter a certeza que comunidades menores não sejam esquecidas. Em 1993, Rodrigo Baggio, naquela época um jovem professor de tecnologia da informação de escolas privadas do Rio de Janeiro, queria que jovens de diferentes classes sociais falassem entre si via internet. Depois de lançar este projeto, ele percebeu que os jovens pobres não participavam do projeto porque não tinham computadores. Então, ele reformou seu projeto e 2 anos depois fundou o Comitê Pela Democracia na Tecnologia da Informação, (CDI) uma organização sem fins lucrativos que utiliza tecnologia e escolas da comunidade de base para debates, reflexões e engajamento dos cidadãos.

Os doadores que fazem seu dever de casa e conseguem encontrar oportunidades para colaborar e encontrar o veículo de filantropia adequado, continuarão fazendo uma significativa diferença na solução dos problemas mundiais. Os doadores devem ser incentivados a procurar apoio, reforçar os grupos de apoio e alavancar diversidade de recursos e não simplesmente seus talões de cheques. Em 1999, quando John Wood se afastou do cargo de Diretor de Novos Negócios da Microsoft da China para organizar a Sala Para Ler, investiu seu dinheiro, seu talento e sua agenda de telefones na sua meta de ajudar 10 milhões de crianças nas regiões em desenvolvimento para serem educadas melhorando as escolas, bibliotecas e outras infra-estruturas. Em apenas 8 anos, Wood tem conseguido difundir Sala Para Ler desde o primeiro ano quando levou 3.000 livros para uma vila no Nepal no lombo de um yak para uma organização que já construiu 440 escolas e mais de 5.000 bibliotecas bilíngües até alcançar mais de 1,7 milhões crianças na Ásia e África.

Como dizia Sir Winston Churchill, “qual é o objetivo de viver, que não seja para lutar pelas causas nobres e fazer este mundo confuso um lugar melhor para aqueles que viverão depois de irmos embora?”.

*Editores convidados para o artigo especial “Doação individual: Fazendo-a Ser Percebida”.
Peggy Dulany é Presidenta do Instituto Synergos que ela fundou em 1987 para facilitar o relacionamento entre os líderes da Grassroots e líderes políticos e de negócios. E-mail: pdulany@synergos.org.
Adele Simmond é Presidenta da Parceria Filantrópica Global, (Global Philanthropy Partnership) membro do comitê da Synergos e fundadora da Rede de Doadores Globais de Chicago (Chicago Global Donors Network). Ela foi Presidenta da John D & Catherine T Mac Arthur Foundation. E-mail: adelesimmons@mindspring.com
Rory Tolentino é Chefe Executivo do Consórcio de Filantropia Ásia-Pacífico (Asia Pacific Philanthropy Consortium). E-mail: roryappc@pldtdsl.net.

Publicado em 11/07/2008 http://www.gife.org.br/alliancebrasil/main.php

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