Ensinamentos dos antigos maias para uma civilização em crise

por Leonardo Boff*

O modelo de civilização globalizado, que implica uma guerra contra a natureza, está levando todo o sistema de vida a uma grande crise. Há sinais inequívocos de que a Terra não agüenta essa exacerbada exploração de seus recursos, a ofensa à dignidade de seus filhos e filhas e a exclusão de milhões de seres humanos condenados a morrer de fome. Como observava Eric Hobsbawm em seu conhecido livro “A era dos extremos – o breve século XX”: “O futuro não pode ser a continuação do passado; nosso mundo corre o risco de explosão e implosão. Tem de mudar, pois a alternativa a uma mudança da sociedade é o obscurantismo”.

Como evitar este obscurantismo que pode significar a derrubada de nosso tipo de civilização e eventualmente o Armagedom da espécie humana? É imperioso que nos inspiremos em outras civilizações que possam ser fontes de sabedoria ecológica. Há muitas, mas escolho a Maia, porque recentemente visitei durante 20 dias as regiões da América Central onde habitam os descendentes daquele extraordinário ensaio de civilização e conversei com seus sábios, sacerdotes e xamãs.

Daquela riqueza imensa destaco apenas três pontos centrais que correspondem a grandes ausências em nosso modo de vida: a cosmovisão harmônica com todos os seres, a fascinante antropologia centrada no coração e no sentido do trabalho humano. A antiga sabedoria maia se conservou mediante a transmissão oral de pai para filho. Por ter se mantido à margem da cultura moderna, os maias guardam com fidelidade as antigas tradições e os antigos ensinamentos, que também constam de escritos como o Popol-Vuh e os Livros de Chilam Balam. A intuição básica de sua cosmovisão se aproxima muito da moderna cosmologia e da física quântica.

O universo está construído e mantido por energias cósmicas, pelo Criador e Formador de tudo. O que existe na natureza nasceu do amor entre o Coração do Céu e o Coração da Terra. A Mãe Terra é um ser vivo que vibra, sente, intui, trabalha, engendra e alimenta todos seus filhos. A dualidade de base entre formação e desintegração (diríamos entre caos e cosmos) confere dinamismo a todo o processo universal. O bem-estar humano é obtido ao se sincronizar com este processo e cultivar um profundo respeito diante de cada ser. Assim o ser humano se sente parte consubstancial da Mãe Terra e desfruta de toda sua beleza e proteção. A morte não é adversa, é uma imersão mais profunda no universo.

Os seres humanos são vistos como “os esclarecidos, os averiguadores e buscadores da existência”. Um texto do Popol Vuh merece ser citado pela beleza e solenidade com o qual descreve o surgimento do ser humano: “Que clareie, que amanheça no céu e na terra; não haverá glória nem grandeza em nossa criação até que exista a criatura humana”. Para chegar à sua plenitude, os seres humanos passam por três etapas, um verdadeiro processo de individualização, no sentido do pensamento de Carl G. Jung. A “pessoa de barro” tem capacidade de falar, mas, não tem consistência, pois a água a dissolve. Desenvolve-se e pode passar a ser “pessoa de madeira”: tem entendimento, mas não alma, porque é rígido e insensível. Por fim alcança a fase de “pessoa de milho”: “conhece o que está perto e o que está longe”, mas sua característica principal é ter coração. Por isso “sente perfeitamente, percebe o Universo, a Fonte da vida” e bate ao ritmo do Coração do Céu e do Coração da Terra.

A essência do ser humano está no coração; isto é o que muitos pensadores como Michel Maffesoli, Daniel Goleman, Adela Cortina e eu mesmo afirmamos há anos. Reside na inteligência cordial e na razão sensível. Não se trata de abdicar da razão analítica e calculista, mas de completá-la e alargá-la para que nossa capacidade de compreender seja mais ampla e fecunda. Dando centralidade a estas outras formas de exercício da racionalidade, criamos espaço para que emerjam o cuidado, o amor, a compaixão e o respeito, valores sem os quais não salvaremos o sistema da vida ameaçado.

Um terceiro aspecto, o trabalho, é iluminador para nossa cultura. Para nós, o trabalho é fundamentalmente a produção de bens e riqueza. As melhores horas do dia são dedicadas ao trabalho, muitas vezes decepcionante e pouco criativo. Para os maias, trabalhar é ajudar a Mãe Terra, que nos dá tudo o que precisamos para viver. Quando nos falta algo, a ajudamos a produzir o suficiente pra todos. Alcançado este fim, eles se ocupam de outras coisas, como a convivência comunitária, tarefas coletivas, cuidado com as casas, ruas e templos ou atividades artísticas.

O trabalho é para os maias algo que não escraviza o ser humano, mas que lhe permite expressar suas habilidades e moldar sua vida. Esta sabedoria prática é um exemplo válido para esta fase crítica de nossa história. Tudo o que ajuda a manter o equilíbrio da Terra e alimentar sua vitalidade deve ser valorizado e assumido como forma de regeneração e salvação.

*Leonardo Boff, escritor e teólogo da libertação, é um dos autores da Carta da Terra.

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