Princípios do Equador devem incentivar a responsabilidade social dos banco

Em 2003, o Banco Mundial, o International Finance Corporation (IFC) e um grupo de bancos privados lançaram os Princípios do Equador, um conjunto de critérios socioambientais usados na avaliação de crédito a projetos de infra-estrutura com valor acima de U$ 10 milhões. Os critérios são baseados nos padrões ambientais do Banco Mundial e nas políticas sociais do IFC. Cinco anos depois, 60 instituições financeiras do mundo todo já aderiam – voluntariamente – aos Princípios do Equador, algumas delas brasileiras ou com atividades no Brasil: Bradesco, Banco do Brasil, Banco Itaú, Banco Real (como parte do ABN-Amro), HSBC e Unibanco.

No início de maio, a reunião anual das instituições financeiras dos Princípios do Equador, realizada em Washington, nos Estados Unidos, comemorou o aniversário e o sucesso da iniciativa. Cristiane Ronza, especialista em risco socioambiental da área de Risco Socioambiental do Banco Real, esteve lá e avalia nesta entrevista o impacto dos Princípios do Equador nas instituições financeiras – que, para ela, deve ir além do financiamento de grandes projetos e inspirar políticas internas de sustentabilidade.

Instituto Ethos: Em maio, foram comemorados cinco anos dos Princípios do Equador. Qual a avaliação que se faz hoje? Eles deram certo, foram de fato adotados pelos bancos e estão influenciando o financiamento de projetos em vários países do mundo?

Cristiane Ronza: Sim, a avaliação é super positiva. No dia da celebração, em Washington, alguns convidados, que estavam na reunião dos bancos em que foram lançados os Princípios, deram depoimentos nesse sentido. Na época, pensava-se que teríamos no máximo 30 bancos signatários até 2015. E hoje temos 60 instituições financeiras signatárias, inclusive públicas, e com a adesão de um banco chinês, de um africano, de bancos da maioria dos países emergentes e do Oriente Médio, que estão chegando agora. Os Princípios estão de fato influenciando as políticas de sustentabilidade dos bancos na maioria dos casos. E ainda há um caminho a percorrer na influência dos bancos signatários no desenvolvimento de projetos de grande porte em países emergentes.

IE: Que caminho seria esse?

CR: O que fazemos hoje é análise de projetos sob o guarda-chuva dos padrões das melhores práticas socioambientais do Banco Mundial. Aplicamos isso quando se faz análise de financiamento de um projeto de infra-estrutura – de uma hidrelétrica aqui no Brasil, por exemplo. Vemos a conformidade de todo o processo de avaliação do projeto à luz das melhores práticas e verificamos se há algum descompasso ou não. O desafio que ainda temos de percorrer, e que vale para todos os bancos, é o seguinte: se há algum aspecto de um projeto que não esteja em conformidade com algum princípio ou com algum padrão de performance do Banco Mundial, é nosso papel influenciar o cliente. O grupo de bancos que vão financiar devem ajudar o cliente a alterar algum aspecto do projeto para que esteja em conformidade com os Princípios do Equador. Às vezes há casos em que o banco ou o conjunto de bancos financiadores declinam desse investimento por não conseguir influenciar o cliente. Hoje é fácil declinar um projeto controverso, ou que potencialmente gere conflitos, ou em que haja o risco de crédito ou de reputação. O desafio é não declinar e eventualmente contribuir para melhorar o projeto.

IE: O banco pode perder clientes ou oportunidades de negócio ao recusar financiamentos que não atendam esses critérios socioambientais?

CR: Havia esse medo no início da implementação dos Princípios, mas essa preocupação de perder clientes já não está mais na pauta dos bancos. Já não se consegue mais ter projetos financiados, principalmente em países emergentes, sem que pelo menos um banco signatário esteja participando. Uma pesquisa feita pelo Infrastructure Journal mostrou que mais de 70% dos projetos financiados nos países emergentes passam pelo crivo dos Princípios do Equador.

IE: Se 70% das obras de infra-estrutura em países emergentes estão sendo financiadas sob os critérios dos Princípios do Equador, o que significa isso em termos sociais e ambientais? É uma garantia de um desenvolvimento sustentável?

CR: É uma garantia, é um reconhecimento pelos bancos do papel que eles têm de promover o desenvolvimento sustentável. É claro que é preciso ter todo o acompanhamento contratual de que aquilo que foi definido, proposto, avaliado e contratualmente firmado seja de fato implementado. Isso vale para qualquer tipo de pacto, de princípio voluntário ou não voluntário.

IE: A adesão dos bancos aos Princípios do Equador foi maior do que a expectativa inicial. Por que é importante para um banco estabelecer critérios socioambientais no financiamento de projetos?

CR: Em primeiro lugar, é a redução ou a gestão do risco – o risco de crédito e o risco de imagem. Essa é a primeira vantagem. E agora começamos a perceber que isso agrega valor – mostrar para o cliente alguns ajustes de projetos que vão trazer benefícios não só para a saúde financeira do banco, mas também para o cliente, para o negócio dele no longo prazo. Há casos assim no Banco Real, que está servindo como exemplo de financiamento de projetos de energia renovável, pois eles passam pelo crivo dos Princípios do Equador. O Real é recomendado para outros clientes do mesmo setor como o banco que não só fez a análise de financiamento do projeto, mas também contribuiu para a evolução socioambiental nesse projeto.

IE: Então, se antes havia o medo de perder clientes por causa da aplicação dos Princípios do Equador, hoje está acontecendo o contrário? Os bancos que estabelecem esses critérios acabam sendo procurados por causa disso?

CR: É exatamente isso que está acontecendo. O banco passa a ser uma espécie de selo, não só para ajudar na estruturação do projeto, incluindo a questão socioambiental, mas até para o cliente conseguir buscar mais recursos. Ter o Banco Real como assessor, no papel de advisory do projeto, é como um selo de qualidade socioambiental para ele buscar recursos em outros bancos, signatários ou não dos Princípios. Esse não é o caso só do Banco Real, outros bancos também estão fazendo isso muito bem.

IE: A partir do momento em que um banco se torna signatário dos Princípios do Equador, qual a garantia de que ele está de fato adotando esses princípios? Qual a forma de comprovar isso, é por meio de relatórios?

CR: Sempre houve a recomendação para cada banco signatário reportar seus financiamentos à luz dos Princípios do Equador. Havia modelos da melhor prática de divulgação e o critério mínimo. Alguns bancos reportavam muito bem, mas era uma coisa voluntária, cada um fazia de um jeito. Aí entraram as ONGs, principalmente a Friends of the Earth (Amigos da Terra), no seu papel de fiscalizar, de olhar como os bancos estavam divulgando a implementação dos Princípios. Este ano, foi aprovada a governança dos princípios, com regras administrativas. Há um padrão mínimo de relatório, mas o banco pode colocar além do que está sendo sugerido. E ele deve divulgar isso não só no seu relatório de sustentabilidade, mas também na página dos Princípios do Equador na internet. Se isso não for divulgado a contento, e dentro do prazo estabelecido, o banco pode ser retirado da lista de bancos signatários. É uma auto-regulação do próprio grupo de bancos. Também há o papel de cada instituição, que é o de olhar para si e falar: aderi aos Princípios para que fossem um instrumento de gestão, de melhoria de processos e não vou tratar isso com seriedade, com transparência? Há também o papel das ONGs de avaliar e comparar como cada banco relatou a implementação dos Princípios. Isso também pode ser um mecanismo de pressão e de melhoria.

IE: Qual a expectativa nos próximos anos? Espera-se que aumente a adesão de bancos e de instituições financeiras aos Princípios do Equador? Quais são os desafios para o futuro?

CR: Acho que a adesão vai continuar a crescer. Quanto aos desafios, eu colocaria: mais transparência, sempre mais transparência. E usar os Princípios para influenciar cada vez mais, para ter projetos melhores, fazer mais no caminho da sustentabilidade, fazer mais do que a lei exige, ir inclusive além das melhores práticas do Banco Mundial. E também o desafio de fazer análise de risco socioambiental não só para grandes projetos, mas também para outras formas de crédito, para que a adesão aos Princípios sirva como um incentivo à implementação e ao desenvolvimento de políticas de sustentabilidade dentro do banco. Porque os Princípios do Equador foram feitos só para o financiamento de projetos novos. O banco pode aderir e dizer: tudo o que for financiamento de novos e grandes projetos eu olho com critérios socioambientais, o resto, não. Então, há também esse desafio de que os Princípios sirvam para ajudar a instituição financeira a olhar todos os seus critérios de financiamento e de crédito.

IE: Seria usar os mesmos critérios dos Princípios do Equador para qualquer tipo de concessão de crédito?

CR: É para que os Princípios sirvam de modelo e para ir além, para também definir critérios e políticas internas. Cada banco olharia a sua carteira de clientes, veria onde está o risco, que setores são mais sensíveis e começaria a fazer esse exercício interno tendo como modelo os Princípios do Equador, mas também criando suas próprias políticas e restrições. Foi o que o Banco Real fez, só que ao contrário. Ele começou um movimento de análise de risco de crédito corporativo de setores sensíveis, desde clientes pequenos como postos de gasolina até a Petrobras, e veio num crescendo até o estabelecimento de políticas e de critérios específicos. Aí surgiram os Princípios do Equador. Mas, em muitos outros casos, os bancos começaram a olhar a questão da sustentabilidade a partir dos Princípios do Equador, e isso aconteceu com alguns bancos no Brasil.

Fonte: http://www.ethos.org.br

Anúncios

Um pensamento sobre “Princípios do Equador devem incentivar a responsabilidade social dos banco

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s