Mercado socialmente responsável: do desafio à realidade

Em quatro dias, a Conferência Internacional Ethos 2008 reuniu cerca de 2.500 pessoas no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo, entre participantes e palestrantes, jornalistas, convidados e visitantes da Mostra de Tecnologias Sustentáveis e da exposição Ethos 10 Anos. Ao final das quatro mesas-redondas, oito painéis, seis oficinas e várias atividades paralelas, ficou a certeza de que o tema deste ano – “Mercado Socialmente Responsável: uma Nova Ética para o Desenvolvimento” – encontrou respaldo entre todos os que circularam pelas salas e saguões do Anhembi. “As pessoas não estão mais se questionando se uma empresa deve ser sustentável ou não. Elas estão é cobrando quais são as tarefas que cabe à empresa realizar”, afirma Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos. “A Conferência revelou que o mercado quer caminhar para ações que possam viabilizar em larga escala o desafio da responsabilidade social”.

 

Para o vice-presidente executivo do Instituto Ethos, Paulo Itacarambi, isso reflete a própria evolução do Ethos e do movimento de responsabilidade social no Brasil. Durante os primeiros anos do instituto, o objetivo era sensibilizar e mobilizar as empresas para a responsabilidade social. Depois veio a fase de ajudar as empresas a gerir seus negócios de forma responsável, colocando à disposição delas ferramentas de avaliação e de gestão, como os Indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial. O momento, agora, é de fazer com que as práticas da empresa extrapolem os próprios muros. “O foco do nosso trabalho hoje é tornar as empresas parceiras na construção de uma sociedade sustentável”, diz Itacarambi.

 

Uma das novidades da Conferência Internacional, neste décimo ano, é que ela não acabou ao final dos quatro dias de atividades. As seis oficinas realizadas tinham a missão de reunir propostas para que as empresas possam participar ativamente da construção de um mercado – e de uma sociedade – socialmente responsável. As propostas ficarão disponíveis para consulta pública no portal do Instituto Ethos. Qualquer pessoa poderá, por meio do site, fazer também uma proposta. Além disso, haverá encontros com representantes de empresas associadas em vários Estados do Brasil para colher novas sugestões. No final do ano, o Instituto Ethos entregará a autoridades brasileiras, nas várias instâncias de governo, um documento com a consolidação dessas propostas, que poderão servir de base para políticas públicas. Veja abaixo algumas das propostas elaboradas durante a conferência, divididas em três esferas: auto-regulação e práticas de mercado; regulamentação; e ações governamentais.


Auto-regulação e práticas de mercado

 

– Vincular o financiamento de campanhas políticas ao estabelecimento de metas e indicadores para a gestão pública;

– Criar canais de recebimento de denúncias anônimas de corrupção (suborno, fraude etc.);

– Produzir e divulgar estudos setoriais dos impactos socioambientais, com identificação das variáveis críticas por setor e região e monitoramento junto às empresas e à sociedade;

– Estabelecer uma agenda comum entre grandes empresas do mesmo setor e região para o tratamento da variável crítica socioambiental mais representativa nas suas cadeias produtivas;

– Criar acordos entre as empresas e organizações de economia solidária no processo de comercialização, para promover a sustentabilidade das comunidades locais;

– Estabelecer critérios para que os consumidores identifiquem índices socioambientais de empresas e produtos, informando-se por meio de rótulos e embalagens;

– Criar e promover processos reversos como oportunidades de negócio;

– Definir parâmetros de boas condições de trabalho nas terceirizações, tornando os contratantes co-responsáveis.

 

Regulamentação

– Regulamentar o financiamento público, prevendo a análise dos impactos socioambientais na cadeia produtiva da empresa tomadora e determinando contrapartida em programas de qualificação e formação de fornecedores;

– Estabelecer a obrigatoriedade de divulgação de metas e indicadores para a gestão pública (saúde, educação, transporte etc.);

– Criar políticas de incentivo ao reaproveitamento de produtos obsoletos (computadores, celulares etc.);

– Regulamentar a participação dos empreendimentos solidários nas compras públicas;

– Criar uma lei para responsabilizar pessoas jurídicas por corrupção, a exemplo do que acontece em relação aos crimes ambientais;

– Regulamentar a manifestação privada sobre o poder público (lobby);

– Criar um código de responsabilidade socioambiental que permita o controle social por meio de denúncia e punição por órgão público.


Ações governamentais


– Determinar às empresas estatais que produzam relatórios de sustentabilidade conforme o modelo da Global Reporting Initiative (GRI);

– Criar políticas para o sistema financeiro e mecanismos tributários que estimulem o desenvolvimento de produtos e serviços sustentáveis;

– Articular parcerias com o setor privado para desenvolver e implantar normas e certificações para produtos e serviços sustentáveis;

– Implantar o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) nos Estados da Região Amazônica;
– Criar linhas de crédito adequadas aos empreendimentos solidários.

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