Até onde chega a responsabilidade empresarial nos países em desenvolvimento?

Antonio Vives*

Começo este artigo explicando o seu título. A responsabilidade empresarial é diferente dependendo das condições socioeconômicas do país? Ou é apenas é diferente a forma que a responsabilidade social se exerce? Apesar de usar como caso extremo a idéia de países em desenvolvimento, a discussão é aplicável a qualquer outra nação.

Em uma multinacional, a primeira reação de um executivo quando é transferido da sede para uma filial situada num país em desenvolvimento é pensar que ele deve seguir os mesmos padrões responsáveis de seu país de origem. E se sentirá orgulhoso disso. Não baixará os padrões sociais e ambientais, aproveitando que nesses países as regras são mais “flexíveis” ou que exista menos capacidade de supervisão de parta da sociedade civil o dos governos.

Se esse é o pensamento, então começamos bem. – mas nem todos pensam assim. Salvo que no país de destino existam algumas práticas inaceitáveis (lamentavelmente, em alguns países é normal presenciar discriminação racial e de gênero), o profissional fará bem em manter o nível de responsabilidade em padrões elevados, ainda que seja necessário adaptá-lo às realidades nacionais.

No entanto, será muito difícil que ele consiga fazer o mesmo trabalho executado na matriz. Rapidamente ele verá que a realidade é muito diferente, tal como as expectativas da sociedade e dos governos sobre o que se pode “pedir” à empresa são diferentes. Nesse quesito, não se incluem as doações ou suborno, mas as práticas empresariais responsáveis.

O profissional observará, ainda mais se acaba de deixar seu cômodo escritório na cidade capital, que o entorno no qual opera a empresa possui grandes falhas. Há deficiências de infra-estrutura de transporte, de acesso à água potável e saneamento, de saúde, de educação, de governança pública, de segurança social, entre muitos outros. Mas dirá a si mesmo, infelizmente, que esses não são seus problemas, já que compete ao governo resolvê-los.

Ele lembra o que disseram sobre a responsabilidade social da empresa: está em obedecer as leis e levar a cabo suas atividades, que redundam em benefícios para a empresa, de forma responsável, sem impactos socioambientais e – a medida do possível – fazendo o bem. Mas a solução das deficiências está muito além disso.

O profissional pensa que não é seu problema. No entanto, se dá conta que as atividades da empresa estão sendo seriamente afetadas por esses mesmos problemas. Sua obrigação é fazer todo o possível para melhor a situação econômica dos acionistas e donos, ao mesmo tempo em que busca melhorar sua bonificação por rendimento. Nesse contexto, aparecem as dúvidas. Posso ignorar esses problemas, apesar de afetarem a produtividade da organização?

Pouco a pouco ele começa a se convencer que não pode fazê-lo, mas se sente impotente A empresa, afinal, não tem autoridade ou mesmo os recursos para intervir, até porque os recursos necessários vão muito além que os benefícios que teria como dividendo. Na balança, o custo-benefício ficaria desequilibrado. Mas e o financiamento da exposição de arte moderna? No melhor dos contextos, não seria. O profissional se consola pensando que o problema não afeta apenas a sua empresa, mas muitas outras. Então, por que deveria ser a sua empresa a tentar resolver tudo? Os profissionais das outras empresas pensaram igual a ele? Qual é a fronteira do envolvimento do setor privado com o desenvolvimento? É mais fácil ser um free rider do que pagar o bilhete? Se todos pensamos assim não há viagem; não vamos a parte alguma. Por que não unir várias empresas ou a suas associações em melhorar a capacidade de resposta, envolvendo governos locais e organizações da sociedade civil.

Talvez possamos ajudar ao profissional a racionalizar o problema. Se é certo que o correção das deficiências dos governos não é responsabilidade da empresa, no sentido restrito da palavra, não é menos certo que se as atividades de apoio à boa gestão pública levam a benefícios presentes e futuros da empresa. Esta poderia considerar-se como parte legítima da responsabilidade do setor privado, entendido, aqui, de forma bastante simplificada, como o conjunto de atividades, que, melhorando a contribuição da empresa à sociedade, melhoram sua própria situação.

Antes de se render ante a magnitude da tarefa, convém analisar que contribuições podem ser feitas dentro das limitações da empresa. Será necessário começar por encontrar ações que estejam ao seu alcance e que tenham o maior impacto positivo possível sobre a organização e seu entorno. Sem dúvida, poderá contribuindo ao resolver o problema de educação e saúde dos familiares dos colaboradores. Tal como poderá também investir para resolver o problema de violência juvenil na vizinhança, ou no fomento ao esporte, estímulo à leitura por meio de uma biblioteca comunitária – que possivelmente será mais rentável para todos do que apenas a exposição de arte moderna.

Alguns executivos poderão doar seu tempo para assessorar administradores públicos municipais, o que seria contabilizado como investimento. No melhor cenário, pode trabalhar conjuntamente com o governo na criação de um entorno mais propício à operação da empresa, eliminando obstáculos burocráticos.

As oportunidades para contribuir para melhorar a sua própria vizinhança são muito grandes, ainda que os riscos também sejam, em especial o de passar a impressão de que a empresa tenta influenciar ou até substituir o governo. No entanto, há claras formas de estruturar as intervenções para melhorar sua eficácia e reduzir os riscos [1].

Nesse contexto, surgem as perguntas: Até onde chegam os deveres da empresa? Está claro que nem tudo cabe ao setor privado. Em alguns casos podemos falar de responsabilidade com o entendimento que, se nada é feito, alguma lei, regulação, compromisso adquirido será deixado de cumprir. Esse ponto não há discussão.

No entanto, em outros casos de responsabilidade, se nada é feito, é possível entender que houve uma perda de oportunidades para melhorar a situação da empresa, o que forma parta da responsabilidade fiduciária de buscar o melhor para os acionistas e donos – assegurando o êxito da empresa e sua sustentabilidade.

É dentre desse segundo sentido de responsabilidade empresarial em que cabem as intervenções em atenuar as falhas do governo. Note-se que não se advoga, aqui, por presentes ou doações. Mas, contra uma miopia empresarial. Advogando por uma visão integral.

Obviamente que a empresa é responsável pelo impacto de suas atividades. Porém, a linha que divide a responsabilidade do que é desejável é tênue e variável, já que pode mudar de posição dependendo das circunstâncias do país, de sua situação política e sócio-econômica, tal como do contexto da própria empresa. Automaticamente, entra-se em uma área onde existem elementos duvidosos e corresponde aos executivos da empresa tomar até onde pretendem envolver-se, dependendo do impacto que acreditem ter sobre suas atividades, custos, benefícios e de seus objetivos no país.

Essas responsabilidades competem apenas às grandes empresas? Não, a papel é o mesmo, o que varia é a modalidade e capacidade de intervenções. É claro que as empresas de maior porte são as que possuem acesso a maiores recursos para intervir nessas atividades – e que possivelmente se beneficiam mais -, no entanto, a possibilidade de agir não se limita a elas.

Todas as empresas podem contribuir, especialmente por meio de associações ad hoc, ou através de associações empresariais já constituídas, não apenas porque a o grupo potenciaria o impacto, mas também mitigar os riscos políticos.

Além disso, o que se pode dizer é que a medida em que a empresa e seus donos tenham uma visão global, de longo prazo, maior será o seu grau de envolvimento na solução de problemas coletivos e até globais. Neste ponto, deve-se dizer que um grande número de acionistas não conhece a realidade dos países em desenvolvimento, e pensam apenas em explorar suas ineficiências. É preciso recordá-los que, com isso, maiores responsabilidades vêm no pacote.

Nosso executivo exemplo não tem essas idéias muito claras, mas com experiência e em função da posição que a empresa quer chegar no país em questão, e das circunstâncias do entorno, aprenderá onde se encontra a linha entre o que é sua responsabilidade e o que não é, e quando deve movê-la.

Nesse sentido, a única regra fixa é que não se pode, ou deve, ser indiferente ante a problemática do entorno da empresa.

*Antonio Vives é Professor Consultor na Universidade de Stanford, EUA, e sócio principal da consultoria Cumpetere (www.cumpetere.com).

[1] Neste breve artigo não é possível cobrir todos os riscos e a forma de estruturar as intervenções. Uma discussão mais ampla sobre esses aspectos se apresenta no artigo de minha autoria intitulado, “É nossa responsabilidade?”, publicado na edição de abril (2008) da Harvard Business Review América Latina. Uma versão mais extensa, “É nossa responsabilidade? O papel público do setor privado” pode ser lido (em espanhol) no site www.cumpetere.com. .

Fonte: http://www.gife.org.br


Este artigo foi publicado no portal da Fundação Carolina http://www.fundacioncarolina.es/, onde pode ser encontrado em sua versão em espanhol.

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Um pensamento sobre “Até onde chega a responsabilidade empresarial nos países em desenvolvimento?

  1. Essa questão dos papéis do 1º, 2º e 3º setor no que tange à Responsabilidade Socioambiental me despertam certo ceticismo. Na minha visão, e pelo que tenho experienciado como integrante de instituição sem fins econômicos (ou filantrópica), os papéis destes 3 atores estão bem definidos:

    1.o governo quer visibilidade,
    2.as empresas, rentabilidade, e
    3.as instituições, captar recursos.

    Mas, por força das circunstâncias, estou cada vez mais convencida de que a sociedade, de uma maneira geral, movimenta-se no sentido de lutar para que:

    1.o governo assuma definitivamente seu papel de prover à população o que está previsto em lei;
    2.as empresas interajam positivamente com a comunidade, sem que isto agregue necessariamente um retorno financeiro, mas social;
    3.as instituições cumpram seu papel de ser agentes de transformação, dando conta de suas ações, frente a seus financiadores, ou apoiadores.

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