A distância real na avaliação

Fred Carden*

O status quo da avaliação de desenvolvimento não basta. Enquanto a avaliação é relativamente forte na América do Norte e na Europa, em outras partes do mundo, é bem fraca. Se quisermos que a avaliação floresça no Hemisfério Sul (África, Ásia, América Latina), a pesquisa sobre o tema não pode continuar a ser reserva das instituições baseadas no Hemisfério Norte e de seus valores.

Isso simplesmente reforça o status quo e reforça as desigualdades existentes na prática da avaliação. Se os doadores desejarem que a avaliação seja parte do processo de desenvolvimento e não apenas atenda ao seu propósito de responsabilização e aprendizado, eles precisam apoiar os pesquisadores do Hemisfério Sul. É essencial que os cidadãos, os pesquisadores do desenvolvimento e os profissionais dos países do Hemisfério Sul tomem a frente na construção de um campo de pesquisa e prática de avaliação em suas regiões. Essa é a verdadeira distância na avaliação.

Todas as abordagens da avaliação, desde a abordagem participativa à experimental, têm as suas limitações. Todas elas exigem pressuposições em certos estágios e todas são limitadas por fatores que não são incluídos em um estudo. Trabalhamos, portanto, com um conhecimento imperfeito e tomamos as melhores decisões que podemos na ocasião. Assim, o que devemos procurar não é a abordagem perfeita da avaliação, mas abordagens que respondam à questão específica que se coloca no momento, que possam absorver mudanças e novas informações, e cujas conclusões possam ser trianguladas com as conclusões de outros estudos.

A questão mais difícil diz respeito a quem faz esse trabalho. Eu gostaria de defender a posição de que o trabalho é mais bem feito por pesquisadores e organizações baseados localmente, que conhecem a cultura e o contexto, sofrem as suas conseqüências e têm a responsabilidade de desenvolver a capacidade de usar a pesquisa no processo decisório de instituições locais, governamentais, corporativas ou não-governamentais.

Sabe-se que uma quantia ínfima é gasta na avaliação de apoio ao desenvolvimento. Como eles, fico feliz em ver mais discussões sobre avaliação e espero que elas levem ao aumento em seu uso nas decisões sobre apoio ao desenvolvimento e a uma compreensão mais profunda do rigor. Mas o real desafio e a real oportunidade estão em ajudar os naturais dos países em desenvolvimento a usar a avaliação como suporte às estratégias e programas de desenvolvimento. Este artigo propõe quatro questões-chave que precisam ser consideradas na construção de uma avaliação que faça diferença para o desenvolvimento nacional. Eu concluo com comentários sobre o avanço.

Para que serve a avaliação?

A primeira questão é relativa ao uso. Para quem é a avaliação e a que propósito ela serve? Se o objetivo principal for garantir a responsabilização e o aprendizado do doador, então o status quo, com algum aprimoramento de qualidade, é adequado. A avaliação do desenvolvimento surgiu dessa necessidade. Se, como esperamos, a avaliação pretender servir ao processo de desenvolvimento, então ela precisa atender às necessidades dos tomadores de decisão e também os sistemas de governança. Não basta simplesmente torcer os sistemas existentes orientados e projetados para doadores. A mudança necessária não é uma mudança técnica, mas sócio-organizacional.

Que método será usado?

A segunda questão diz respeito à condução da avaliação. Desde que Carol Weiss começou a escrever sobre o uso da avaliação nas políticas nos anos 70, a maioria dos estudiosos do assunto reconheceu a importância central do engajamento dos usuários, tanto as equipes dos programas quanto os tomadores de decisões, a compreensão do contexto, a aplicação de novos modelos e perspectivas e o acompanhamento após a conclusão do estudo. A confiança tem um papel essencial neste processo, e a confiança aumenta significativamente através do engajamento local. O objetivo de uma avaliação deve ter um papel-chave na determinação do método mais apropriado. Qualquer que seja o método, a condução do estudo deve levar em conta a importância de se compreender as condições locais e garantir que as equipes possam responder e se envolver continuamente com os programas sendo avaliados, inclusive por um longo tempo após a conclusão do estudo.

A necessidade de rigor

Os que defendem o envolvimento local ativo na avaliação freqüentemente enfrentam críticas de que essa abordagem carece de independência. A terceira questão a ser considerada é que a “independência” é um mito útil, um ideal a ser perseguido, mas que nunca alcançamos. Lutamos para criá-la de muitas formas, como grupos de avaliação que se reportam a um Conselho em dez de à gerência ou usando um avaliador externo, seja uma pessoa ou uma organização. Entretanto, as pessoas, conselhos e organizações, todos têm valores, crenças e necessidades de sobrevivência, sendo sua independência limitada.

O que é crucial entender é que se os valores e crenças de uma sociedade são impostos a oura através da avaliação, temos uma situação que provavelmente levará a erros, ressentimentos e mal-entendidos. Mais importante do que a independência é a necessidade de adaptar a honestidade metodológica e intelectual – rigor. O rigor não é a visão pura de uma única metodologia, mas está mesclado em todos os métodos de avaliação e no cuidado no projeto, coleta e análise dos dados.

Sabendo a hora certa

A quanta questão é a hora certa. O desenvolvimento tem o seu próprio passo e ritmo. Raramente este estão alinhados com os prazos dos projetos e os planos de trabalho. Isso significa que é essencial saber mais sobre como se envolver nos processos que afetam a intervenção. Em termos de quem precisa saber, novamente os que podem seguir de perto o desenvolvimento ao longo do tempo são atores essenciais. Esses são os pesquisadores, os tomadores de decisão e as partes interessadas que têm.que enfrentar as conseqüências de uma mudança de política ou de prática no dia-a-dia.

A distância na avaliação revisitada

Se as organizações financiadoras desejam apoiar o uso de evidência no processo de decisão como parte do processo de desenvolvimento, é crucial desenvolver o campo da avaliação no Hemisfério Sul. Para esclarecer: desenvolver um campo não é treinamento nem transferência de técnicas. Envolve capacitar nações, seus cidadãos, pesquisadores e profissionais de avaliação a desenvolver culturas e capacidades de avaliação autóctones para contribuir para uma melhor tomada de decisões.

A avaliação em desenvolvimento permanecerá relativamente fraca desde que seja dirigida principalmente pelos doadores e través de instituições baseadas e criadas no Hemisfério Norte. Para que a avaliação capitaneada pelo país tenha o controle, o campo precisa ser desenvolvido de forma que mais e melhores avaliadores estejam trabalhando nas bases nas questões de desenvolvimento.

Não existe uma solução fácil para esse desafio, nem de curto prazo. Ele exige que os que apóiam os esforços de desenvolvimento considerem se vêem a avaliação como uma parte séria da paisagem do desenvolvimento ou meramente como uma ferramenta para responsabilização e aprendizado dos doadores. Se não preenchermos essa distância, a avaliação continuará a lutar com a contradição de se destinar a apoiar o desenvolvimento, mas, em operação, apoiar o status quo e reforçar a distância que existe entre o Norte e o Sul.

*Fred Carden é Diretor da International Development Research Centre and Research Fellow in Sustainability Science no Harvard’s Center for International Development.
Email: Fred_Carden@ksg.harvard.edu

Publicado em 21/04/2008 em www.gife.org.br

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